Publicado 27 de Fevereiro de 2018 - 19h05

Marcelo Serrado encenava Rain Man quando seu diretor, José Wilker, lhe apresentou um instigante texto inglês, Shakespeare’s Villains, monólogo criado em 1998 pelo britânico Steven Berkoff e que apresenta, de forma didática e bem-humorada, os principais malvados das peças do bardo. “Fiquei empolgado com a ideia e com as diversas possibilidades dramáticas”, conta Serrado, que pretendia ser novamente comandado por Wilker. A morte do colega em 2014, no entanto, adiou o projeto até o ano passado quando, para comemorar seus 30 anos de carreira profissional, Serrado estreou no Rio, agora sob a batuta de Sergio Módena. Mais de cem apresentações depois em palcos cariocas, o ator chega a São Paulo com Os Vilões de Shakespeare, no sábado, 3, no Teatro Eva Herz.Trata-se de uma espécie de conversa informal em que um palestrante apresenta e interpreta grandes personagens shakespearianos marcados pela vilania. “É sonalidade própria. "É fascinante representar vários vilões, pois todos carregam arquétipos variados: há o dissimulado, o tirano, o vingativo. Por meio deles, Shakespeare mostra as causas e os motivos e também dá uma justificativa, para que possamos compartilhar uma jornada psicológica em vez de simplesmente condenar a maldade.”William Shakespeare é um autor seminal na literatura inglesa e cujo estudo da obra é praticamente obrigatório nas escolas. “É um escritor sacralizado e, portanto, somente aqueles que o conhecem profundamente é que têm o ‘direito’ de brincar com seus textos. Foi o que fez Berkoff, que tornou o texto shakespeariano mais próximo e interessante do público moderno”, observa Sergio Módena que, para conquistar o mesmo efeito em plateias brasileiras, apostou em uma bem-humorada direção. Para isso, contou com a preciosa colaboração de um especialista em Shakespeare (já traduziu oito peças), o poeta e dramaturgo Geraldo Carneiro que, em sua versão do texto, acrescentou situações mais próximas do cotidiano nacional, apresentando não apenas a natureza do mal, como também os pecados do teatro e as vaidades dos atores. É dele, por exemplo, a inclusão de um discurso mais otimista sobre a vilania, presente em A Tempestade, a última peça escrita pelo bardo.É o que justifica que, em um determinado momento, Serrado brinque com si mesmo ao interpretar um membro imaginário da equipe e que comenta como o ator evoluiu na carreira ao, finalmente, encenar Shakespeare, uma vez que, até então, era só conhecido como Crô, afeminado personagem da novela Fina Estampa (2011/12) que alcançou enorme sucesso. Em outra cena, abusando da caricatura, Serrado mostra a decepção de um crítico ao vê-lo tratar de Shakespeare — para o analista, o ator ainda não reúne as qualidades necessárias. “Assim como Berkoff brinca com os costumes britânicos, fazemos o mesmo aqui”, comenta o diretor que, aliás, decidiu encerrar o espetáculo com uma canção inspiradora: Sympathy For The Devil, dos Rolling Stones.Conversa diretamente com os espectadores e convida todos a revelarem, em voz alta, os seus vilões. (Estadão Conteúdo)