Publicado 28 de Fevereiro de 2018 - 5h30

A Venezuela tem convivido com a tensão social nas últimas décadas, notadamente após a chegada ao poder de Hugo Chávez, em 1999. Ao declarar seu país uma “república bolivariana” e disseminar uma retórica anti-imperialista, Chávez seduziu parte da esquerda brasileira, abrindo flancos para a criação de um movimento político-doutrinário na América do Sul cujo objetivo era impor uma ordem social de ataque frontal ao neoliberalismo.

Bolívia e Equador são dois dos países que têm grande afinidade com o bolivarianismo e o Brasil, por sua vez, serviu de escudo aos arroubos de Chávez por conta dos governos petistas de Lula e Dilma, em perigoso flerte para a geopolítica e as relações internacionais. Os Estados Unidos, obviamente, sempre foram o epicentro desse discurso de demonização.

O caminho percorrido pelo governo venezuelano, desde então, foi bem claro: sufocar a oposição, perseguir a imprensa, repreender movimentos populares e concentrar cada vez mais o poder. Chávez morreu no dia 5 de março de 2013, há quase cinco anos. Nicolás Maduro, seu sucessor, manteve o discurso bolivariano e não hesitou em usar o Exército nas ruas para intimidar oposicionistas em várias ocasiões, sempre com o patético argumento de proteção à pátria.

Como sempre, a população é a maior vítima de modelos gestados na ambição e no autocentrismo. Populista, o regime venezuelano foi dilacerando o tecido social, culminando agora com uma crise humanitária gravíssima, com venezuelanos sem alimento, em situação de desespero e em fuga para as fronteiras. O Brasil, depois dos EUA, é o segundo maior destino desse êxodo. Para isso, tardiamente, tem adotado medidas de assistência humanitária e de saúde, além de um maior controle desse fluxo imigratório. Os venezuelanos, aos milhares, têm entrado no País por Roraima.

Famintos, desempregados, desassistidos, sem esperança, os venezuelanos não viram outra alternativa para a sobrevivência. Buscar um trabalho digno, mesmo de baixa qualificação, é o sonho da maioria. O Brasil tem tido dificuldades para servir de refúgio legal, pois não oferece infraestrutura condizente para o tamanho da demanda.

Algumas lições ficam desse enredo na Venezuela: alçar uma doutrina ao panteão do sistema público-político não é garantia de desenvolvimento social e econômico; as liberdades individuais seguem sendo a grande conquista do homem moderno; é preciso saber conviver com a divergência, pois longe de atrapalhar, ela pode ajudar. Fica, agora, o drama: como a Venezuela vai sair dessa?