Publicado 27 de Fevereiro de 2018 - 5h30

Em meio a tantas notícias ruins com as quais somos bombardeados, diariamente, surgem as boas que devemos divulgar para que o desânimo e a descrença na capacidade humana de reinventar sua própria história não tomem conta de nossos pensamentos, limitando a capacidade criativa de que somos dotados, condição básica para a sobrevivência neste planeta.

Com alegria, pude acompanhar no último dia 22 de fevereiro, no Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc), a aprovação, por unanimidade, de minha solicitação, protocolada, do registro de bem de natureza imaterial “Prática de brincadeiras tradicionais de rua no Município de Campinas”, no livro das Formas de Expressão, de acordo com o que dispõe a legislação federal. Esta decisão do Conselho implicará, obrigatoriamente, em ações de salvaguarda do bem cultural que o poder público deverá levar a cabo envolvendo várias secretarias, bem como entidades privadas da própria sociedade.

O que isto representa? Por que ficarmos felizes com este ato? Alguns dirão que a população de Campinas está precisando de coisas mais importantes do que preservar a cultura lúdica da infância.

Ledo engano! Estamos há mais de meio século, manipulados por uma sociedade de consumo e pelo individualismo estimulado pela competitividade própria do capitalismo, abandonando práticas de convivência grupal e de desenvolvimento qualitativo de aspectos importantes da fisiologia, da psicologia, da sociabilidade e afetividade os quais são desenvolvidos na infância, através das brincadeiras livres com iguais e diferentes na rua, por excelência, este, o espaço da sociabilidade humana em todos os tempos e lugares.

Revalorizar, preservar e difundir a lúdica infantil criando e mantendo espaços públicos onde as crianças de todas as camadas sociais, credos e cores possam desenvolver livremente a criatividade, o companheirismo, o respeito ao diferente e às regras — através dos jogos, assim como a imaginação, a memória e a alegria — no ritmo das parlendas, certamente contribuirá para o surgimento de um homo sapiens mais sábio que o atual.

Atribuir importância à criança enquanto ser criativo e livre para inventar e reinventar coletivamente, também permite colocar nela a semente da cidadania, tão necessária à construção do estado democrático que tanto almejamos.

Há exatamente 30 anos iniciei o projeto de pesquisa e documentação da cultura lúdica infantil existente em Campinas em bairros de classe A, B, C e D, com uma entusiástica equipe universitária, à qual devo a possibilidade de haver descrito no livro Brinquedos e Brincadeiras: patrimônio cultural da humanidade, Pontes Editores. 2 edição, 2004.

Desde então, nunca mais parei de trabalhar no sentido da divulgação da proposta de preservação desse patrimônio imaterial junto à comunidade museológica internacional e aos órgãos que trabalham com a cultura e a preservação patrimonial.

Em 1990 a Unesco outorgou ao projeto o selo “Década Cultural Mundial”, tendo sido sugerido ao governo brasileiro inclusão em pauta de reunião do órgão uma proposta de declaração de Patrimônio Cultural da Humanidade aos brinquedos e brincadeiras infantis.

Como acontece sempre em nosso país, mudança de dirigentes nas pastas do Ministério das Relações Exteriores e Ministério da Cultura resultou em engavetamento da proposta.

Concluo insistindo na importância de não abdicarmos, jamais, das utopias que elaboramos para termos um mundo melhor, esperando que a sociedade de Campinas possa reconhecer a importância desta ação do nosso Condepacc, primeiro conselho de preservação do patrimônio cultural criado no País, em cidade do Interior, no ano de 1987, o qual goza de respeitabilidade no contexto nacional.