Publicado 26 de Fevereiro de 2018 - 8h01

Por Rogério Verzignasse

Geodany Morillus, hatiano, que aos 26 anos de idade conseguiu trabalho em uma rede de supermercados da Região Metropolitana de Campinas

Cedoc/RAC

Geodany Morillus, hatiano, que aos 26 anos de idade conseguiu trabalho em uma rede de supermercados da Região Metropolitana de Campinas

O Brasil - e principalmente as cidades da Região Metropolitana de Campinas - tiveram desenvolvimento marcante com a chegada dos imigrantes europeus, a partir do final do século 19. Valores, crenças e costumes foram incorporados à própria cultura nacional. Hoje em dia, no entanto, as correntes migratórias têm características distintas. O País passou a receber imigrantes do próprio Hemisfério Sul, ou virou porto seguro para pessoas que deixaram a própria casa, em vários pontos do mundo, fugindo da guerra e da miséria.

Campinas tem uma participação importante no contexto. A cidade é a segunda cidade, dentro do Estado de São Paulo, que mais recebeu imigrantes desde 2000. A constatação faz parque de um atlas e de um novo livro, que estão sendo lançados por pesquisadores do Núcleo de Estudos da População "Elza Berquó" (Nepo), da Unicamp. As obras detalham o novo perfil imigrante ao longo dos primeiros 15 anos do século 21.

As publicações mostram quais são os países de origem, e quais municípios passaram a servir de residência dos imigrantes. A pesquisa usou a base de dados da Polícia Federal e do Ministério da Justiça, que em as informações do Registro Nacional de Estrangeiro (RNE), concedido a quem é admitido no país na condição de temporário, permanente, asilado ou refugiado.

Políticas públicas

Para a pesquisadora Rosana Baeninger, coordenadora do trabalho, entender as características atuais do fluxo imigratório é essencial para que o governo possa estabelecer políticas públicas e ordenar a acolhida aos imigrantes, que buscam serviços essenciais como nas áreas de Saúde e Educação.

Há uma observação importante: a interiorização das migrações internacionais, notadamente no Interior de São Paulo.

Entre 2000 e 2015, entraram no Brasil nada menos que 870.926 imigrantes. Destes, 367.436 foram registrados no Estado de São Paulo. A configuração migratória teve mudanças radicais com a entrada expressiva de haitianos e sírios no país, além de imigrantes latino-americanos, como populações indígenas venezuelanas, que migraram para a Amazônia.

Fronteiras abertas

Os pesquisadores também notaram que o Brasil passou a ter uma participação importante no fenômeno migratório mundial porque representou opção de trabalho e renda no momento em que diversos países fecharam suas fronteiras para refugiados.

Mas os novos migrantes já não pertencem, como no passado, a um segmento formado majoritariamente por pessoas de baixa renda e baixa qualificação profissional. Hoje, a migração mescla trabalhadores de diferentes perfis profissionais e socioeconômicos. Em 2015, por exemplo, os haitianos predominavam no setor de produção de bens e serviços industriais. Já os paraguaios representavam a maioria entre os trabalhadores do campo. Os portugueses, por sua vez, estavam mais presentes no segmento de serviços administrativos.

O Atlas do Observatório das Migrações em São Paulo é ilustrado com as belíssimas imagens do fotógrafo Chico Max, que cedeu fotos da exposição "Somos Todos Imigrantes" para ilustrar o volume.

Análise

O livro Migrações Sul-Sul foi produzido ao mesmo tempo. Ele reúne 82 artigos de especialistas, com análise de diversos temas relacionados, como direitos humanos e leis de imigração. O livro conta com textos sobre as ações da academia para imigrantes e refugiados, e está disponível para download gratuito no http://www.nepo.unicamp.br/publicacoes/livros/migracoes_sul_sul/migracoes_sul_sul.pdf

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Rogério Verzignasse