Publicado 26 de Janeiro de 2018 - 17h50

Por Adriana Villar

Beatriz Maineti,

especial Agência Anhanguera

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Fotos: Leandro/Leandro Torres

Após a resolução da Organização Mundial de Saúde (OMS) em incluir a dependência em jogos eletrônicos, sob o nome de “vício em games”, na 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID), muitos membros da comunidade gamer sentiram a necessidade de debater o que pode ser considerado como dependência. De acordo com o documento da OMS, o problema é descrito como padrão de comportamento frequente de dependência dos jogos a ponto de substituir outras atividades pelos jogos eletrônicos.

A CID é utilizada por médicos e pesquisadores para tratar e diagnosticar doenças através de códigos para doenças, sinais ou sintomas. Para a nova inclusão do comportamento como dependência em games, a 11ª CID irá sugerir que comportamentos típicos dos viciados devem ser observados em um período de 12 meses, mas ressalta que esse período pode ser menor se os sintomas forem muito graves. Para classificar como distúrbio, alguns dos sintomas citados no documento incluem não ter controle da frequência com que joga vídeo game, além de priorizar o vídeo-game a outras atividades.

Entretanto, para os jogadores, existem outros aspectos a serem considerados. Renato Vinícius Carraro, analista de sistemas de 21 anos, diz que os jogos podem ser usados de refúgio. “Quando estou mal com alguma situação ou estressado, jogar algum jogo é a melhor terapia para mim”, afirma o jovem. Segundo Renato, ele entra no jogo da mesma forma que alguém que ama livros se entrega e se sente dentro da história, por exemplo, mas afirma que é necessário tomar certas precauções. “Assim como qualquer refúgio, isso também pode se tornar uma dependência se você não controlar”, afirma Renato. Segundo ele, o controle é algo difícil de ter, e confessa que já passou por um episódio de dependência por um jogo que havia comprado recentemente. “Passei uma semana trancado no meu quarto. Dormia duas horas por noite, e só saía pra comer às vezes e pra ir ao banheiro, mas só quando estava muito apertado”, afirma o analista de sistemas.

Já para Thiago Henrique Santos Chagas de Carvalho, estudante de 22 anos, os pais devem intervir antes que os jogos gerem uma dependência, principalmente em crianças. “Crianças não sabem dosar o tempo que passam jogando e nem o que jogam, por isso é muito importante que os pais fiquem atentos a isso”, afirma Thiago. Ele levanta, também, o aspecto de que, atualmente, muitos jovens e adultos têm adotado os jogos eletrônicos como profissão, através dos chamados e-sports. “Essas pessoas praticam diariamente por horas. Elas também poderão ser consideradas dependentes?”, indaga o rapaz. Os e-sports, ou seja, os esportes eletrônicos, passaram a ser cotados para se transformarem em esporte olímpico, já sendo disputados a partir dos Jogos de Paris, em 2024.

Caio Pires Marques, estudante de 20 anos, joga League Of Leagends, um dos games online mais famosos da atualidade, e não acredita que essa resolução possa afetar negativamente seu jogo. “Ao mesmo tempo que os jogos foram considerados, o LoL vem crescendo muito no mercado de e-sports”. Porém, o estudante afirma que “como diz a minha mãe, tudo em excesso faz mal”. Segundo ele, os episódios de dependência são comuns, e ele mesmo afirma já ter passado por isso. “Meus pais foram viajar e eu fiquei quase 24h jogando sem parar”, confessa o estudante, e afirma que isso afetou sua vida social e seus estudos, já que a única coisa que ele queria fazer era jogar.

Porém, além dos malefícios dos jogos, Iuri Biasi, estagiário na área de engenharia da computação de 21 anos, afirma que deve ser levado em consideração os benefícios dos jogos. “Nasci na época de ouro dos jogos eletrônicos, na qual o Super Nintendo tinha acabado de ser anunciado no Brasil, e tudo era uma coisa muito nova por aqui. Tive a oportunidade de crescer nesse meio, jogando desde que me lembro por gente, e posso afirmar que isso me trouxe muitos benefícios e alguns malefícios, assim como a prática de qualquer atividade”, afirma Iuri. Segundo ele, chamar a dependência em jogos eletrônicos de distúrbio mental é “algo muito extremista”, embora concorde que não seja algo saudável. “É comprovado que a velocidade no desenvolvimento do raciocínio lógico de pessoas que jogam, e não apenas jogos eletrônicos, é elevada devido aos enigmas e diversas situações impostas nos jogos”, defende o estagiário.

Segundo a psiquiatra e professora do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, Renata Cruz Soares de Azevedo, o uso excessivo de recursos eletrônicos tem aumentado. Segundo ela, a dependência em jogos eletrônicos compartilha de semelhanças com outras dependências, como em drogas ou álcool. A diferença, segundo a psiquiatra, está na ação apresentada no cérebro, que, no caso da dependência de substâncias, é mais direta. Renata afirma que o primeiro passo para fazer a avaliação de potencial dependente é a importância do comportamento, no caso, os jogos, na vida do indivíduo. Em seguida, segundo a psiquiatra, é necessário ver se ele possui algum outro quadro psíquico, como a depressão. Não existe um tratamento com base em medicamentos para a dependência, apenas que podem diminuir o comportamento compulsivo, além do tratamento para o outro quadro psíquico.

Segundo a psiquiatra, o mais importante no tratamento da dependência são os tratamentos psicoterápicos. Para a dependência em games, a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) é a mais indicada, e se assemelha ao tratamento usado em dependentes alcoólicos. “Com a TCC, o paciente aprende a se controlar sem excluir o comportamento diretamente, aprendendo a fazer metas para suas conquistas pessoais em relação a dependência”, afirma Renata. Entretanto, a psiquiatra afirma que o tratamento psicoterápico deve ser a última alternativa, depois de todas as mudanças em seu ambiente já tiverem sido feitas. Para Renata, é preciso se certificar de que o comportamento é específico do indivíduo, ou se são características familiares. Segundo ela, por exemplo, caso a família “chegue todos os dias, senta cada um em seu canto do sofá e mexe em sua tela particular”, é a modelagem familiar.

Entretanto, Renata adverte que os pais, principalmente de crianças que possuem um comportamento preocupante, devem estar atentos e tomar as medidas necessárias. A psiquiatra aconselha, por exemplo, que o computador seja retirado do quarto em casos de sinais de dependência, e afirma que prestar atenção à classificação indicativa dos jogos é um dos principais deveres dos pais. “As classificações indicativas existem por um motivo, e é importante que os pais verifiquem quais são, e porque determinado jogo tem determinada classificação. É preciso respeitá-la”, conclui Renata.

DICAS PARA EVITAR DEPENDÊNCIA

- Até dois anos, não permitir o uso de telas

- A partir dessa idade, apenas com supervisão

- Impor limites quanto a horário de uso

- Não permitir que se troque a noite pelo dia

- Acompanhar o conteúdo acessado pelos filhos

FONTE: Renata Cruz Soares de Azevedo, psiquiatra e professora do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp

NÚMERO

82% da população brasileira entre 13 e 59 anos jogam algum tipo de game nas mais diversas plataformas

FONTE: pesquisa realizada em 2015 pelo NPD Group

Escrito por:

Adriana Villar