Publicado 26 de Janeiro de 2018 - 11h44

Por Rogério Verzignasse

PAISAGEM ||| TRANSFORMAÇÃO

Praça perde cadeiras de engraxates

Prefeitura remove sete equipamentos “abandonados” por permissionários ao longo do tempo

Insegurança afastou

clientela do largo e

inviabilizou atividade

Rogério Verzignasse

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

[email protected]

Campinas vai perdendo um dos seus cenários mais tradicionais. As cadeiras dos engraxates da Praça Visconde de Indaiatuba, em frente do Palácio da Justiça, vão aos poucos sendo removidas pela Prefeitura. A atividade profissional, verdadeiro patrimônio cultural da cidade, não resiste aos tempos modernos. O número de clientes caiu e não há novos candidatos para assumir os pontos. Então a Administração decidiu: à medida que os engraxates – quase todos senhores de cabelos branquinhos – forem se aposentando, as cadeiras serão desativadas. Dos 16 equipamentos instalados na praça, só restam nove. A presença dos servidores substituindo as bases de concreto por calçamento entristece os velhos frequentadores do Centro.

Engraxar sapatos no Largo do Rosário foi, durante décadas, programa obrigatório para campineiros que passavam horas ali, debatendo os causos da política e os resultados do futebol. É, por aquelas cadeiras já se acomodaram prefeitos, vereadores, juízes, advogados, artistas, empresários… Aquele era o lugar em que o noticiário da cidade corria.

Bom, Campinas mudou. A inauguração da Cidade Judiciária, por exemplo, levou para longe do Centro dezenas de clientes fiéis. Eram senhores que trabalhavam no Fórum, de terno e gravata, e recorriam diariamente à cadeira do engraxate. Além disso, o comércio sofisticado deixou a região central e partiu para os shoppings. Então, consumidores abonados também sumiram da praça.

“Ih, quando muito, engraxo dois pares de sapato por dia. Tem dia que não aparece ninguém”, diz o seo Almir Luz, de 77 anos, que há 47 anos trocou São José do Rio Preto por Campinas e, como engraxate, sustentou sua casa.

Outro trabalhador muito conhecido por ali é o Carlito, apelido de Carlos Aparecido Teodoro, de 69 anos, que fala, todo orgulhoso, ser o mais antigo engraxate da praça. Ele foi testemunhando as mudanças. “Ah, os engraxates vão largando a profissão. As cadeiras ficam abandonadas, estragando...”, disse.

Vandalismo e descaso

Em porco mais de uma dez anos, a paisagem da praça se degradou. Em meados da década passada, o governo municipal investiu na compra de novos equipamentos, substituindo velhos caixotes de madeira por cadeiras novas, que no final do dia podiam ser lacradas, protegidas por portinholas corrediças metálicas. Cada peça ganhou até a estampa de um patrocinador. Se pensava em uma estrutura mais refinada, com direito a guarda-sol e tudo.

Com os anos, no entanto, as cadeiras abandonadas viraram depósito de roupas, cobertores e outros apetrechos que pertenciam a moradores de rua. Hoje mesmo, todo mundo vê, os bancos e canteiros da praça estão tomados por pessoas bem humildes, maltrapilhas, que passam o dia esparramadas, invariavelmente entorpecidas por álcool e drogas baratas.

O novo cenário desagrada antigos frequentadores. Como Eurídes Cossa, um senhor de 82 anos. Para ele, o poder público deveria investir na preservação da praça, com o acolhimento dos moradores de rua, e em rondas de segurança. “Puro descaso. É um desrespeito com uma praça que representa a história da cidade”, disse. “O mais irônico é que o vandalismo acontece em frente do Fórum. Absurdo”, reclamou.

BOX

Funcionários da Serviços Técnicos Gerais (Setec), autarquia responsável por administrar a ocupação do solo público, trabalhavam nesta sexta-feira na recuperação do calçamento da praça, às margens da Avenida Campos Salles, de onde a Administração decidiu remover seis cadeiras de engraxate. Do outro lado da praça, de frente para a General Osório, há duas semanas foi retirada outra cadeira. No chão, ficaram as bases de concreto. A diretoria da Setec informou, por meio da assessoria de imprensa, que vai manter as cadeiras remanescentes, enquanto os permissionários estiverem dispostos a trabalhar.

Escrito por:

Rogério Verzignasse