Publicado 24 de Janeiro de 2018 - 18h34

Por Adagoberto F. Baptista

Letícia Guimarães

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Prestes a entrar na semana da visibilidade trans, lembrada no período do dia 29 de janeiro, o País registra números aterradores sobre a violência contra a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), no ano passado 445 pessoas foram assassinadas em crimes de homofobia, 30% a mais do que em 2016. Na Região Metropolitana de Campinas (RMC), foram 218 ocorrências de violência, sendo dois homicídios, segundo o Centro de Referência (CR) LGBT de Campinas. O número do ano passado foi menor do que o apurado pelo órgão em 2016, mas isso não significa que os casos tenham diminuído, já que os registros feitos pelo CR são apenas as denúncias que chegam pelo Disque 100, canal de denúncia anônima. O mesmo ocorre com o levantamento feito pelo GGB, que recolheu informações de casos publicados pela imprensa nacional. Se sem a totalidade dos dados as estatísticas já colocam o Brasil como o primeiro no mundo em mortes de pessoas LGBTs, conforme ranking da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais (ILGA), se todos os casos que não chegam à polícia ou aos jornais fossem quantificados mostraria uma realidade ainda mais cruel.

Na RMC, de acordo com a coordenadora do CR LGBT, Valdirene Santos, em 2016 foram registrados 357 casos de violência contra esta população, contra 218 no ano passado. Dentro destes dados, quatro pessoas foram assassiandas, enquanto o restante são casos de agressões físicas e psicológicas. “São agressões graves. Infelizmente essa diminuição não significa a redução dos casos, mas que pode ter havido queda nas denúncias. Em 2016, as maiores vítimas na região foram os homens homossexuais, enquanto em 2017 houve “aumento considerável” de lésbicas como vítimas, segundo Valdirene.

De acordo com ela, é preciso avançar em políticas públicas para que estas pessoas deixem de ser agredidas por serem como são e quem são. “É preciso que a homofobia e a LGBTfobia sejam criminalizados. Mas ainda falta passar pela questão da educação, que é o fator principal. As pessoas precisam ter aquela educação de família mesmo, que ensina a respeitar o outro como ele é”, afirmou.

Neste ano, a programação do CR ainda está sendo definida, mas a coordenadora já adiantou algumas ações que devem ser realizadas. Está previsto um seminário LGBT para discutir questões diversas sobre o tema e um fórum para debate sobre o assunto pela ótica dos pais. Deve haver também a segudna edição do Selo Compromisso com a Diversidade, que é entregue à estabelecimentos e empresas que acolhem, empregam e atendem de maneira digna esta população, além da sexta edição do Mapa da Violência, que destaca os números analisados no ano anterior.

Para Valdirene, a discussão sobre a violência é um dos temas mais urgentes envolvendo a população LGBT. “As paradas estão atraindo números cada vez maiores de pessoas porque aquele é um momento em que a pessoa LGBT se sente segura, proque ali tem outros iguais a ela, que tem uma segurança que estará ali pra ela. Nos outros 364 dias do ano elas não conseguem caminhar pelas ruas livremente. Nós estamos tirando o direito dessas pessoas de estarem nas ruas.”

No Brasil

O levantamento sobre os casos de morte de pessoas por homofobia que foram noticiados na imprensa em 2017, feito pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), já é realizado anualmente há 38 anos. Em 2017, 445 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais foram vítimas deste tiopo de crime, o que representa uma morte a cada 19 horas. O número é um triste recorde desde quando o estudo começou a ser feito. A maior parte dos casos foram em São Paulo, o que representa 11% do total, seguido por Minas Gerais, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro.

As 445 mortes no ano passado fazem frente às 343 em 2016; 319 em 2015; 320 em 2014 e 314 em 2013. Segundo o GGB, o número alcançado no ano passado é três vezes maior do que o observado há 10 anos, quando foram identificados 142 casos.

Sob a lupa, dos casos de morte no ano passado, 194 eram gays, 191 eram pessoas transexuais, 43 eram lésbicas e cinco eram bissexuais. Destas pessoas que foram mortas, 136 foram feridas com armas de fogo; 111 com armas brancas; 58 cometeram suicídio; 32 morreram espancadas e 22 asfixiadas. Há também registros de violências como apedrejamento, degolamento e desfiguração do rosto. A maior parte dos casos, 56%, ocorreram em vias públicas, enquanto 37% foram dentro da casa da vítima. De acordo com o grupo, a prática mais comum com travestis é o assassinato na rua a tiros ou por espancamento. Já gays em geral são esfaqueados ou asfixiados dentro de casa.

O agressor mora ao lado

O que inicialmente parecia uma implicância de vizinho se tornou um ataque homofóbico. A vítima é Maria (nome fictício), de 75 anos, mulher transexual que tem medo de ser identificada e sofrer uma nova agressão. Ela conta que um vizinho que mora em uma casa no mesmo terreno que ela começou a atormentar, jogando lixo no quintal comum, até que um dia houve uma agressão verbal. “Pouco antes do Natal do ano passado ele arrombou a minha janela e gritou que iria me matar. Fui fazer um boletim de ocorrência contra ele, e quando voltei, meu carro que estava na garagem estava todo quebrado e riscado.”

Maria voltou à delegacia para regirtrar a nova ocorrência, e ao retornar para casa, viu que o vizinho havia pegado fotos pessoais dela que estavam guardadas em um móvel na garagem e espalhado pela rua. “Quando questionei o motivo de ele ter feito aquilo, ele partiu pra cima de mim, fiquei com os braços machucados, porque a minha pele é fina”, relatou.

O agressor chegou a ser preso, mas foi liberado e continua morando no mesmo imóvel. A sensação de insegurança tomou conta da vida da mulher que hoje vive com as janelas trancadas e tem medo de sair de casa. “Eu vivi o período de ditadura militar, trabalhei em multinacionais e nunca havia sofrido tamanha violência”, lamentou.

Escrito por:

Adagoberto F. Baptista