Publicado 26 de Janeiro de 2018 - 19h05

Há muitos anos, caminhando pelas ruas centrais de Jales, no extremo Oeste do estado de São Paulo, fui surpreendido pelo som vindo de uma loja de artigos musicais, que imediatamente associei a Bach e às suas composições para cravo. Ao me aproximar mais, constatei o engano: era uma música de viola, de nossa viola caipira.

Não entrei na loja para me certificar quem seria o executante, o violeiro. Mas o que me permaneceu na mente foi a similaridade, pelo menos aos meus ouvidos, entre o timbre do cravo e o da viola. Essa impressão foi depois sempre confirmada por audições das peças bachianas escritas para cravo, inclusive no excelente CD gravado pela cravista Helena Jank com as Variações Goldberg. Fuçando mais a respeito, me senti agradavelmente surpreso ao constatar a existência de várias transcrições da obra bachiana para a viola caipira, entre as mais recentes as dos instrumentistas Neymar Dias e Vinicius Muniz.

Campinas tem sido aquinhoada com a presença de notáveis violeiros, que aqui se instalaram ou por aqui passaram, deixando as marcas de sua arte: entre outros, Ivan Vilela, Paulo Freire, João Arruda, Tião Mineiro.

A sonoridade do instrumento, da viola bem temperada, afinada como que até os limites da tensão das cordas, produz ainda, em minha mente, um efeito fortemente evocativo. Ela me transporta para as origens interioranas, para uma paisagem arcaica hoje quase mitificada, porque talvez desaparecida diante da penetração das máquinas da modernidade nos mais distantes rincões: território de rústicas fazendas, grotões, rios profundos e límpidos, lagoas misteriosas, prados onde crescem grande árvores e pasta o gado tranquilo.

Diz-se, do blues, modalidade musical dos negros norte-americanos, que suas composições mais inspiradas remetem ao deep South, ao Sul profundo dos EUA; da moda de viola eu diria que remete ao nosso Oeste Profundo (à nossa Alma profunda). Nas cordas de outra Helena, a violeira Helena Meireles, vai ainda mais fundo, aos confins do Mato Grosso, já nas fronteiras com o Paraguai e a guarânia.

Essa sensação, repassada de nostalgia, acentua-se diante de canções cujas letras (embora simples e diretas e talvez por isso mesmo) vêm reforçar a expressividade da música.

Cito Rancho Vazio, composição de Anacleto Rosas Jr. e Arlindo Pinto, imortalizada por Tonico e Tinoco, canto de dor pela perda da mulher amada, e também uma interpelação à impiedade divina: Levanto os olhos pro céu/ pergunto a Nosso Senhor/ Aonde está minha Maria/ Mulher que eu tanto queria/ e que Vancê carregou?

Voz que clama no deserto, grito de dor proferido no mais recôndito do sertão, nos ermos, na solidão compacta de uma tapera vazia, sem nenhuma criatura nas imediações capaz de ouvir e se compadecer.

Cito outra, como a primeira e tantas mais, disponíveis na internet: A Morte do Carreiro, de Zé Carreiro e Carreirinho, onde, em meio à descrição de uma tragédia rural, introduzem-se esses versos: “Os galos cantaram triste, ai, ai, ai, ai/ No retiro adonde eu moro, ai, ai, ai, ai.” Essa interjeição, entoada com voz soturna e grave, produz um efeito impactante, como se fosse um canto ritual fúnebre: reminiscência, talvez, de remotos cantares indígenas?

É quando penso no caipira como descendente do bandeirante que, no meio do caminho, renunciou à empreitada, à busca cobiçosa do ouro: instalou-se numa palhoça à beira do rio; assumiu os costumes dos selvícolas em seu desapego dos bens materiais; tocou a sua violinha; e contentou-se com o ouro do dorso dos peixes. Como na canção Pescaria, de N. Caporrino e Zé Carreiro (domingo de tardezinha / eu estava mesmo à toa...): “Jogo a rede e dou um grito/ Ai, ai/ Os dourados amontoam.” Saboroso elogio da indolência.