Publicado 25 de Janeiro de 2018 - 19h05

Em um momento em que os meios de comunicação são acusados de divulgar “notícias falsas”, Steven Spielberg, Meryl Streep e Tom Hanks levam todo o poder das estrelas a um filme que é uma grande homenagem ao jornalismo e às virtudes da imprensa.Indicado ao Oscar 2018 nas categorias de melhor filme e melhor atriz, The Post: A Guerra Secreta, que estreia hoje no Brasil, conta os bastidores da batalha para a publicação, em 1971, pelo jornal The Washington Post dos Papéis do Pentágono, um relatório que revelou as mentiras sobre a participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.Dirigido por Spielberg, o filme tem como protagonistas Meryl Streep, como a aristocrata editora do jornal Katharine Graham, e Tom Hanks, no papel do tenaz editor executivo Ben Bradlee.O drama central do filme aborda a decisão de Graham de publicar os documentos do Pentágono, um movimento que poderia ter provocado consequências fatais para o jornal que Graham começou a dirigir em 1963, após o suicídio de seu marido.Os Papéis do Pentágono, vazados pelo informante Daniel Ellsberg, eram um relatório confidencial de 7 mil páginas que afirmava, ao contrário das declarações públicas dos funcionários do governo americano, que a guerra do Vietnã era impossível de vencer.O jornal The New York Times publicou trechos do relatório até que o governo do presidente Richard Nixon obteve uma ordem judicial que proibia à publicação continuar interferindo em temas de segurança nacional.Foi então que o Washington Post entrou na jogada, assumindo a missão e desafiando os perigos legais e financeiros.O tema abordado pelo filme evoca o governo Trump e sua maneira particularmente mordaz de lidar com a imprensa. Ele investiu contra a CNN e o New York Times e atacou repetidamente o Post, que acusou de “desonesto, mentiroso” e, seus termos favoritos, de publicar “fake news” (notícias falsas).No Twitter, no final do ano passado, o presidente chamou o jornal de Amazon Washington Post, em referência a Jeff Bezos, proprietário da gigante da internet Amazon, que comprou o Post da família Graham em 2013.Na semana passada, Trump acusou o The Wall Street Journal de não ter publicado corretamente uma frase sua sobre a relação com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un. Alguns dias depois, O mandatário anunciou os ganhadores de seu “Prêmio Fake News”, retomando os persistentes ataques aos meios de comunicação do país. Patriotismo

Na pré-estreia, Spielberg, Hanks e Streep, que já foi chamada por Trump de “superestimada”, evitaram citar o nome do presidente e minimizaram os comentários de que o filme seria uma crítica à atual Casa Branca. “Acredito que é muito, muito importante que nosso filme não seja visto como uma obra política ou partidária por parte do que chamam de mídia liberal ou Hollywood”, disse Spielberg.“Não o vejo como um filme partidário, e sim como um filme sobre patriotismo e sobre os meios de comunicação corajosos, o Quarto Poder, e tudo o que fizeram para conseguir publicar os Papéis do Pentágono, que depois levou a Watergate”.O caso Watergate foi tema de um grande sucesso de Hollywood, no qual o Washington Post também teve um papel central: Todos os Homens do Presidente, no qual Robert Redford e Dustin Hoffman interpretaram os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein.Apesar dos pedidos de Spielberg, os críticos observam paralelos inevitáveis entre The Post, sua defesa da imprensa e a difamação constante de Trump aos meios de comunicação.“The Post nos leva de volta a um tempo em que os resultados eram precários e as liberdades que considerávamos garantidas pendiam por um fio”, afirma a revista Variety. “Exatamente como hoje”.Para a revista The New Yorker, “The Post não é um filme de época. Enfrenta diretamente o dia de hoje, lutando pela urgência de um manchete”. “O filme está aqui para nos alertar sobre as novas ameaças à liberdade de imprensa”. (Da Agência France Press)