Publicado 03 de Janeiro de 2018 - 19h05

A ilusão ou, fantasia, aquela necessária à criança no processo de construção de sua mente, acolhendo nela um Papai Noel tão bondoso, encantador, misterioso e amoroso. Mistura de bom avô com boa avó — ao mesmo tempo provedor de presentes mas também de carinho, colo e abraço (ainda que às vezes um pouco suado). Figura daquele que, em nossas mentes, uma vez ao ano, vinha lá de longe de onde quer que fosse, até onde quer que estivéssemos. Mantendo-nos sempre (enquanto a fantasia durou) no desejo de seu retorno em dias especialmente prazerosos do ano.

Ah a magia do Natal. Pouco importa se nosso país é tropical e não tem renas, nem neve, nem duendes, nem lareiras... Ele — nossa fantasia em projeção — se concretiza e vem ao nosso encontro. Nada melhor.

Na criança, é natural. Sua mente é particularmente propícia à fantasia (quando isto não lhe é roubado cedo demais). Se eu falasse em teoria, falaria na predominância do Princípio do Prazer (em oposição ao da Realidade), princípio operante na mente infantil, regendo sua lógica, seus desejos, suas construções.

Até um dia mais cedo ou mais tarde — geralmente em torno dos 7-8 anos — em que ele, Papai Noel, nos é ‘desmascarado’. Costuma ser um primo mais velho ou mais chato, um “amigo”, alguém que, junto de nossas suspeitas, nos confirma: "Papai Noel não existe".

Uma pausa - em nossa infância - para a retomada do fôlego e do prumo. Temos de convir: seus efeitos (deste velhinho barbudo e sorridente), sobre nós, foram um dia poderosos.

Aí mais à frente no tempo chega a possibilidade de se ganhar na Mega-Sena e ver todos seus problemas — ou vários deles — extintos. Bem, até alguns dias atrás, acreditava-se que alguém sempre ganhava e isto garantia a democrática e infalível chance a todos. “Alguém sempre ganha”. Pode ser eu, pode ser você (se jogarmos, claro). De uns tempos para cá, porém, há dúvidas — se a chance é de fato democrática, ou se seria mais uma valeta da corrupção num país banhado por ela. Resta saber.

Pode ser que o grande prêmio da Loteria — ou seja, uma grande soma de dinheiro vinda sei lá de onde (talvez da Lapônia, como o próprio Papai Noel) ao meu encontro — ocupe em minha mente, algo do lugar do Papai Noel outrora: algo da ordem da fantasia, do prazer que a fantasia nos proporciona.

Seus efeitos sobre nós — não de sua realização, já que pouquíssimos passam pela experiência de ganhar a Mega-sena da virada — mas seus efeitos prazerosos, logo a partir do momento da aposta, se fazem presentes.

Quem já prestou atenção nas conversas da fila de uma lotérica, escutou: “Vou comprar uma casa... vou dar uma casa para minha mãe... vou viajar... Vou”.

E dizendo assim, com suas palavras atravessadas pela possibilidade de que seu desejo se torne realidade - não importando a ínfima porcentagem de chances reais -, a vida concreta parece ser, por instantes, mais suportável. Apaziguada, como com a espera do Papai Noel, lá atrás. Instantes mágicos que repetem de forma mais breve - entre a aposta e o sorteio - quase aquele mesmo prazer da fantasia da infância.

Mais que isto, no caso da aposta na loteria, por alguns instantes é como se uma dor - a dor do querer e não ter - diminuísse sua chama. E diminuindo sua chama, me autorizo a sonhar: com a grande casa; com a grande viagem; com as belas refeições, com o carro novo. Seus efeitos, não dá para negar, são balsâmicos. Suprindo por alguns instantes, em fantasia, ao menos a falta material.

A possibilidade, por mais remota que seja, não importa: é suficiente para que eu aposte. Afinal, a aposta não vem da razão (da mínima chance em cinquenta milhões — caso haja), mas de outro lugar em nós. Creio, do lugar que um dia, esperou o Papai Noel.

Este velhinho que, sob boas condições, geralmente “vinha” (após um ano de espera). No caso da Mega da virada, apesar do ano de espera, o prazer da ilusão dura somente até a grande, dura e amarga revelação da realidade: não foi dessa vez.

Mas valeu tentar. Afinal, como nossa mente humana agora “adulta” pode dar conta de tantas exigências para vivermos. A realidade não é simples nem fácil. Em nossa mente de criança conseguimos facilmente substituí-la, quando pequeninos. Até aqueles momentos cruciais nos quais é preciso abandonar a fantasia, para poder batalhar pelo leite. No bebê, é geralmente pelo choro que isto se dá. No adulto — espera-se —, pelo trabalho.

Mas quando a dor e a falta são muito grandes, busca-se algo que nos ‘retire um pouco da realidade’, que a contorne, que me acolha e recolha, num mundo onde tudo — ou um pouco mais — é possível: onde meu desejo é realizável, sem que eu tenha que realizá-lo eu mesmo.

Uma espécie de “ópio”, por alguns momentos. Como pode ser a igreja (para alguns), o futebol, a droga. Muita gente já morreu — e matou - por este ópio (drogas, dinheiro, religião). Talvez Papai Noel não seja uma má opção, após tudo.

A Mega da virada já foi. Mas não nos desesperemos, logo teremos Carnaval, Copa do Mundo e eleições.