Publicado 05 de Janeiro de 2018 - 5h30

Há meses que o Centro Infantil Boldrini, de Campinas, vem se empenhando em uma verdadeira cruzada contra o Ministério da Saúde por conta da necessidade de um medicamento específico a ser utilizado em pacientes com leucemia linfoide aguda. Nesta semana, o Centro recusou um lote de 168 frascos de Leuginase enviados pelo governo, coerente com a posição adotada anteriormente, uma vez que o medicamento não tem comprovação de eficácia no tratamento da doença. A discussão já toma alguns meses e a posição defendida pela médica Silvia Brandalise, presidente do Boldrini, é que não existe comprovação científica confiável dos efeitos do medicamento oferecido por um laboratório chinês, em substituição a outro que era normalmente enviado, o L-Asparaginase, de procedência alemã. Pelo contrário, a eficácia do medicamento chinês é seriamente contestada por laudos técnicos. Para não colocar a vida de pacientes em risco, o Boldrini tem se recusado a utilizar os lotes enviados, contando com recursos próprios, doações, e parceria com o laboratório Shire, que já obteve aprovação de registro da Anvisa para comercializar o medicamento. No hospital, que é referência nacional, há hoje 95 pacientes em tratamento, sendo quatro crianças (Correio Popular, 4/1, A5).

O Ministério da Saúde insiste na compra através de licitação pelo menor preço, dando a um laboratório na China a preferência que é contestada por médicos, que acusam a concorrência pública de estar em desconformidade com os critérios da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), que exige comprovação de eficácia e segurança. Há neste confronto um conflito de interesses. O Ministério da Saúde defende a economia – o remédio tem um custo por volta de R$ 6.600,00 – mas o que está em jogo são vidas e a segurança de pacientes que merecem e têm direito ao melhor atendimento possível. Neste contexto, soam falsos e irresponsáveis todos os argumentos que pretendem a substituição de medicamento tão singular por um genérico que sequer tem eficácia comprovada.

Na situação atual, e considerando precedentes comprometedores do sistema público de Saúde, não é exagero dizer que o mais correto é alinhar-se sob a bandeira levantada pelo Centro Infantil Boldrini e exigir o cumprimento das exigências mínimas para a compra e cessão do medicamento de acordo com especificações recomendadas por médicos do porte de Silvia Brandalise e tantos outros que dedicam suas vidas à proteção, atenção, assistência profissional e humanitária de seus pacientes. O governo deveria apenas cumprir sua parte sem mercadejar com a vida alheia.