Publicado 04 de Janeiro de 2018 - 5h30

E os olhos do novo ano estão a me olhar e assim me escondo por entre meus travesseiros de perna e cabeça. E torço para que o novo ano passe sem se aperceber da minha existência, eu que nada sou além da minha insignificância, das coisas que nada sei e ando a estar sem tempo para aprender.

Minhas resoluções são as mesmas de muitos anos: de não querer magoar ninguém; deixar de fumar e perder uns dez centímetros abdominais.

E também pedir desculpas a um amigo por palavras trôpegas que proferi em uma assembleia de comunistas de botequim. Mas ele sumiu depois de pegar seu diploma de agrônomo para tomar conta das fazendas do pai.

E desejo nunca mais esquecer de regar as plantas dos vasos do apartamento e arranjar uma vontade natural (sem exigência médica) para passear pela lagoa do Taquaral com um jeito de quem nada faz na vida, a não ser andar e espiar velhas e conhecidas árvores de infância.

Dormir e acordar mais cedo e realimentar meu coração com as orações em versos de Drummond também estão na minha humilde listinha de resoluções.

E sempre lembrar de ligar para os meus irmãos quando de seus aniversários (e o mesmo vale para os meus sobrinhos, filhos e parentes distantes). E devo tomar mais cuidado ao atravessar as ruas da minha vida, da minha cidade, do meu bairro e, principalmente, as encruzilhadas e tocaias que os políticos e empresários corruptos armam para roubar o nosso suado imposto.

E também devo tomar coragem para descobrir por onde andam, entre as minhas tralhas, velhas canções escritas e perdidas em meu desleixo de papéis.

E, maior das resoluções, a única, aliás, até hoje cumprida, amar cada vez mais uma certa sereia caipira do Rio Verde.

O novo ano não me mete medo. E isso aprendi com o saudoso cartunista Henfil com quem tive bons dedos de prosa quando ele aparecia em Campinas para eventos subversivos. Quando confessou que era portador do vírus da Aids (ele era hemofílico e foi contaminado em uma das inúmeras transfusões a que se submetera), um repórter perguntou se ele tinha medo da morte. Curto e grosso, como era do seu estilo, respondeu: Medo? Nem pensar. Eu tenho é raiva!

E foi numa dessas aparições que ele desenhou o seu famoso e herege Fradinho numa das paredes do também saudoso Bar Ilustrada, no início dos anos oitenta, na época capitaneado pelo meu compadre Zincão e o saudoso agitador cultural Camilo Chagas. E foi com o Henfil que aprendi, também, que o sofrimento não melhora e nem piora ninguém. Se sofre apenas; calado, de preferência para não perturbar a felicidade alheia.

Henfil era um cartunista que amava a liberdade sobretudo e se tinha críticas a fazer da sociedade de consumo era porque não tinha tempo a perder com desejos supérfluos; tinha que viver o aqui e o agora o quanto antes. E como viveu!

E assim aprendi que o sofrimento não ensina nada. E muito menos o medo da morte. A saúde e a vida é que ensinam o caminho da felicidade que, segundo assim nos ofendem os infelizes, só é possível aos ignorantes e pobres de espírito. Quem pensa assim não sabe nada das pequenas porções de felicidade que a vida nos oferece a cada momento e que dura o tempo necessário para se fixar na memória e assim se perpetuar. E são esses pequenos nacos de prazer que nos deixam emocionalmente mais saudáveis para suportar a carga de sofrimentos que a vida nos coloca nos ombros, quer pelas doenças que nos acometem, quer pelas injustiças e violências sociais que diariamente grassam pelas costelas magras do planeta e que se nos arrebentam na tela da tevê e manchetes de jornais.

De resto, a felicidade é o estado natural da maioria dos homens, embora uma pequena minoria ache exatamente o contrário, quer filosofando, poetando, romanceando ou politicando. Já fui leitor dessas coisas. Hoje, prefiro ler o que os jardineiros escrevem nos jardins da cidade. Portanto, esqueça o ano que passou. Já era. Não serve para absolutamente mais nada, a não ser que você seja um desses colecionadores de calendários de borracharia. É isso.

Bom dia.