Publicado 03 de Janeiro de 2018 - 5h30

Gratidão. Esse é o sentimento que motiva o proprietário do Bar do Kim, Florisvaldo Lisboa de Brito, de 52 anos, a liberar o estoque de destilados de seu estabelecimento todo dia 2 de janeiro. Ontem ele realizou a 11 edição do “Dia do Pingaiada - Um dia de biritas na faixa”. Antes do meio-dia a leitoa já estava assando e os 16 quilos de carne e linguiça estavam sendo preparados com o vinagrete. “Providenciamos a comida para ninguém passar mal”, brincou Kim. “Começou com uma brincadeira e um desafio e hoje já estamos completando 11 anos. Nossos clientes gastam o ano inteiro, porque não serem presenteados com um dia como esse”, contou. Todas as pessoas dispostas a “entornar” cachaças, vodcas, conhaques e tudo aquilo que beira 38% de teor alcoólico puderam contar com as mais de 120 garrafas liberadas logo pela manhã. “Vamos repondo até acabarem os estoques”, disse Kim.

Sucesso, a iniciativa já reúne amantes da bebida de regiões distantes como os bairros Boa Vista e São Fernando, Hortolândia, Sumaré e Valinhos. As saladas, são cuidadosamente preparadas por Célio Silva, de 35 anos. O vigilante, que mora no Jardim São Vicente, conheceu o bar fornecendo produtos de limpeza e agora já faz parte da organização. “Sou o mestre do vinagrete. Tudo é preparado com muito carinho, acompanhado de folhas, salada de jiló e abobrinha fresquinha. É uma grande festa. Imperdível”, disse.

Por trás da organização da festa está também a esposa de Kim, Eleni Soares de Brito, de 55 anos. De longe ela acompanha o movimento. Evangélica, apoiou a compra do bar pelo marido, já que apostava no seu talento como empreendedor. “Tínhamos uma loja e ele veio com a ideia de comprar o bar. Claro que apoiei. Ele é ótimo”, disse. “Se me incomodo por ser evangélica? Não. Faço minha parte orando. Tenho certeza que Deus ama todas essas pessoas. Temos muito carinho com os nossos clientes”, contou. “Ah, e o Kim não bebe”, brincou.

Mas ela já viu situações engraçadas envolvendo o excesso de biritas. “Já vi muitas esposas e namoradas retirarem seus companheiros aos tapas e gritos aqui do bar. Mas sempre tentamos conservar o ambiente de respeito”, falou.

A vendedora Conceição de Maria Lima, de 57 anos, confirma o clima o Bar do Kim. “Todos somos muito respeitados aqui, principalmente as mulheres. Geralmente venho acompanhada do meu marido, já que os homens ainda têm muito preconceito com mulheres no bar, mas um dia vim sem ele e um moço me ofereceu carona. Na hora o Kim entrou no meio da conversa e disse que me levaria embora”, relatou. “Ele não deixa nenhum cliente se engraçar ou tratar mulheres com intimidade”, garantiu. O marido, José Custódio de Andrade, da mesma idade, já frequenta o boteco há mais de 10 anos. “Somos uma grande família aqui”, disse. O técnico eletrônico vai à festa desde o começo. “Essa é uma forma de ele corresponder à fidelidade dos clientes. O Kim é muito honesto e nos trata sempre dessa forma. É um prazer vir aqui”.

A cozinheira Jane Rosa de Castro, de 45 anos, cujos pais moram no bairro, apareceu no Dia da Pingaiada pela primeira vez. “Gosto de bebida doce. Já bebi Catuaba e Baianinha. Estou achando ótima a iniciativa. Estão de parabéns”, disse.

Catuaba selvagem, pinga 51 e Paizano são as bebidas mais pedidas. A única birita com sotaque estrangeiro era o conhaque Dherer. As estrelas do Dia da Pingaiada são produtos nacionais, bebidas mais em conta e responsáveis por deixar seus adeptos “mais animados”. É o combustível ainda para muitas histórias engraçadas. “Já matamos cinco aqui nesse bar. O último foi o 'Cozido', que faleceu no último domingo”, contou o administrador Rafael de Souza, de 53 anos. “Vim só para jogar sinuca, mas a mesa está cheia de birita. Não entendi”, brincou.

Mas tem ainda os adeptos da vodca. Seu Carlos está tentando parar de beber, mas não resiste a uma dose. “Gosto de Smirnoff, mas o Kim só coloca na mesa Askov”, reclamou brincando. A bebida oferecida custa em torno de um terço da outra. “Tá valendo. O que importa é rever os amigos, confraternizar o começo do novo ano e beber de graça. Feliz 2018”, disse Carlos Bertagnolli, de 62 anos, vendedor.

As mesas já estavam todas ocupadas, mas Kim ainda aguardava alguns fregueses fiéis. “Um dos frequentadores mais populares do boteco é o Risadinha. Em menos de dez minutos de manguaça ele já fica bêbado. Logo deve estar chegando por aí”, falou. “Hora da foto”, gritou ele. “Vamos juntar todos aqui para não esquecer desse dia que tanto nos orgulha”, chamou.

O Bar do Kim, que fica na Rua Durval Ulhôa Cintra, 86, no Parque Jambeiro, abre diariamente, a partir das 8h.