Publicado 26 de Janeiro de 2018 - 22h42

Por Alison Negrinho

Por Alison Negrinho

A professora Iara Rolim, organizadora da exposição 'Imagens Invisíveis', e o diretor da casa do Brasil, Ivan Camargo

Divulgação

A professora Iara Rolim, organizadora da exposição 'Imagens Invisíveis', e o diretor da casa do Brasil, Ivan Camargo

Quantos bons momentos você viveu e, com o passar dos anos, as lembranças se tornaram cada vez mais vagas, com uma riqueza menor de detalhes? Ou então, em um mundo cada vez mais digital, quantos álbuns de fotografias foram deixados de lado, abandonados em um armário, sem que ninguém os veja ou sequer se recordem onde estão? Diante deste cenário, a professora colaboradora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Iara Rolim, desenvolveu uma detalhada exposição fotográfica chamada 'Imagens Invisíveis', que foi exposto neste mês na Maison du Brésil (casa do Brasil), em Paris, e que apresenta uma experiência no campo da linguagem visual, dentro da perspectiva contemporânea.

Depois de estudar a questão da memória na universidade e ler alguns artigos a respeito, Iara desenvolveu um projeto em torno do tema. Foi então que ela juntou os assuntos “memória” e “esquecimento” e passou a se perguntar o que, de fato, era memória, e o que era a perda da memória. Dessa maneira, começaram a surgir ideias para a exposição. A pesquisa inicial aconteceu em 2016 e, no ano seguinte, já havia uma primeira versão do trabalho.

Com um ponto de partida definido, a professora, que fez mestrado em antropologia na Unicamp e doutorado em sociologia na Universidade de São Paulo (USP), optou por montar seu trabalho em duas vertentes. A primeira é a possibilidade do desaparecimento da memória da mente, em que as lembranças, outrora marcantes, somem. A segunda, por sua vez, são as memórias registradas em fotografias, nos álbuns de família e que ninguém mais vê.

Na Maison du Brésil, o trabalho ficou exposto durante este mês, com entrada gratuita. A brasileira, aliás, possui forte ligação afetiva com o local. Ela realizou estágio de doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) na França e, por lá, foi acolhida pela Maison du Brésil. O local, que serve como casa na cidade universitária, é considerado patrimônio histórico no país, porque foi desenvolvido pelos renomados arquitetos franceses Lúcio Costa, que também tinha nacionalidade brasileira, e Le Corbusier. “Essa exposição é como se eu estivesse retribuindo o tempo que passei na França, retribuindo de alguma forma a experiência importante que foi estar no país para pesquisar sobre o fotógrafo Pierre Verger. Meu trabalho de doutorado foi sobre a inserção dele na carreira de fotógrafo aqui na França, então se eu não viesse, não teria como fazer a pesquisa de doutorado”.

Ter o trabalho mostrado e reconhecido em solo europeu é motivo de orgulho para Iara Rolim. Vinda da área de ciências sociais, a qual considera extremamente teórica, ela se mostrou muito satisfeita em conseguir misturar a teoria e a prática. “Não é uma coisa muito fácil, mas acho que as duas tem importância na concretização do resultado final”. Ainda de acordo com ela, não houve dificuldades na montagem da detalhada exposição. “Toda exposição dá trabalho, tem a questão da concepção, como ela se adapta no espaço que a está recebendo, que condições esse local oferece, mas isso não é algo difícil”, contou.

Sem um público-alvo definido, a brasileira espera que quem visitou a exposição possa entender e fazer uma reflexão sobre a memória e o esquecimento a partir das imagens que encontraram lá. “É importante que possa ser discutido, levante questões, que as pessoas possam refletir sobre o que viram. Que a exposição tenha sensibilizado as pessoas e provocado uma discussão sobre o tema”.

Por fim, Iara ressaltou a importância do estágio realizado na França, para que pudesse trazer ao Brasil uma bibliografia atualizada sobre fotografia, que consiga ajudar outros profissionais. “Fiz cursos com alguns nomes importantes para a fotografia, como Michel Frizot, além de pesquisas em várias bibliotecas de Paris, algumas delas bem especializadas no tema”.

Exposição no Brasil

O trabalho apresentado na França foi uma segunda versão desenvolvida por Iara. A primeira foi exposta em São João del-Rei, na galeria da universidade federal da cidade mineira, como parte de uma exposição coletiva. “Eu comecei esse trabalho quando frequentava duas disciplinas na Unicamp, uma no Instituto de Artes, com a professora Luise Weiss e outra no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), com a professora Fabiana Bruno.”

Após isso, Iara participou de uma atividade do Sesc, em Campinas, fazendo parte de uma exposição coletiva. O trabalho teve curadoria de Eder Chiodetto, renomado profissional de fotografia. Em seguida, ela juntou parte de seu trabalho com os de outros quatro artistas, sob curadoria da professora Fabiana Bruno. O que foi exposto na Europa, porém, ainda não foi visto no Brasil.

De acordo com ela, sua formação dentro de Ciências Sociais foi determinante para a exposição montada. “Fiz o mestrado em antropologia e o doutorado em sociologia, então esse é meu ponto de vista para as questões. Vem disso a minha forma de pensar sobre as coisas que o mundo coloca. Para eu fazer um trabalho fotográfico eu não deixo de ler sobre modelos teóricos e como a antropologia enxerga a questão, então antes de concretizar tudo, eu li muito sobre memória e tentei juntar em forma de imagem essa reflexão que é teórica e prática também, porque tem essa produção dentro do mundo das imagens”, concluiu.

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