Publicado 01 de Janeiro de 2018 - 21h59

Por Estadão Conteudo

'Gabriel e a Montanha' conta a história de Buchmann, desaparecido por 19 dias, e encontrado morto em Malaui

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'Gabriel e a Montanha' conta a história de Buchmann, desaparecido por 19 dias, e encontrado morto em Malaui

A gafe histórica na entrega do Oscar ('La La Land' foi proclamado vencedor quando 'Moonlight' era de fato o ganhador) prenunciava um ano confuso para Hollywood. Mas quem haveria de adivinhar que acusações de estupro e assédio acabariam com as carreiras de figurões como Harvey Weinstein e Kevin Spacey e abalariam estruturas de dominação mantidas em silêncio na intimidade da indústria? 

Exceção feita à confusão do prêmio, o Oscar 2017 ofereceu ao mundo uma amostra de força do cinema negro nos EUA. Depois do Oscar so White de 2016, os negros brilharam em 2017, como diretores, atores, atrizes, personagens. Sem qualquer paternalismo reparatório, títulos como o próprio 'Moonlight', 'Um Limite entre Nós' e 'OJ: Made in America' são obras marcantes, boas críticas e público.

Um filhote dessa excelência do cinema black é 'Corra!', de Jordan Peele, que reativa a crítica ao racismo usando as armas do gênero terror. A história: um rapaz negro é levado por sua namorada branca para conhecer a família e não sabe o que o aguarda. Tenso, bem filmado, com toques mesclados de terror e humor. Deve emplacar no Oscar 2018. E em tom mais contido, mas não menos contundente, 'Detroit em Rebelião', de Kathryn Bigelow, recorda um caso real de crime racial.

Dos EUA, o maior destaque é 'Paterson', de Jim Jarmusch. Emoção refinada, toque luminoso e discreto para uma época difícil. Em termos de cinemão, 'Dunkirk', de Christopher Nolan, parece imbatível.

Outros dos melhores filmes estrangeiros vieram do Oriente, como o magnífico 'Na Praia à Noite Sozinha', de Hong Sang-soo, da Coreia do Sul, e 'A Mulher que se Foi', de Lav Diaz, das Filipinas.

A Europa mandou sua habitual cota de cinema de qualidade. Dos irmãos belgas Dardenne veio 'A Garota Desconhecida'. Do britânico Ken Loach, 'Eu, Daniel Blake'. A maior surpresa foi o húngaro 'Corpo e Alma', de Ildikó Enyedi, um dos filmes mais originais do ano. Um homem e uma mulher tentam se aproximar. Mas ela é travada e ele, traumatizado. Até descobrirem que, por algum motivo, sonham os mesmos sonhos. Também inusitado é o alemão 'Toni Erdmann', história do relacionamento entre pai e filha, tema pesado matizado pela comédia.

O cinema latino viu-se representado por ótimas obras: o cubano 'Últimos Dias em Havana', de Fernando Perez, o argentino 'Eva não Dorme', de Pablo Agüero, o venezuelano 'El Amparo', de Rober Calzadilla, e, sobretudo, o chileno 'Uma Mulher Fantástica', de Sebastián Lélio.

Qualidade

Quanto ao cinema brasileiro, deve-se registrar o fato quase inexplicável de ter passado imune à crise econômica e política que devastou outros setores. Produziu cerca de 150 longas, o que não é nada mal. Melhor: há qualidade a ser colhida nessa produção expressiva. 'Gabriel e a Montanha', de Fellipe Barbosa, No Intenso Agora, de João Moreira Salles, 'Era o Hotel Cambridge', de Lili Caffé, 'Martírio', de Vincent Carelli, 'Corpo Elétrico', de Marcelo Caetano.

Mas a participação brasileira de “qualidade” não ficou por aí. 'Como Nossos Pais', de Laís Bodanzky, e 'As Duas Irenes', de Fábio Meira, recolocaram em foco a questão feminina, num ano em que a ação feminista tomou lugar privilegiado na pauta brasileira de debate ao lado das lutas antirracistas e pela afirmação LGBT.

A questão racial foi debatida com intensidade ímpar a partir da exibição de 'Vazante', de Daniela Thomas, no Festival de Brasília. Algumas pessoas se insurgiram contra a maneira como escravos foram representados nessa história ambientada na Minas Gerais do século 18. Houve repique do debate quando o filme chegou ao circuito comercial.

A questão é ampla: refere-se à maneira como se representam eventos e personagens históricos. Sabemos que não é neutra e expressa um ponto de vista do diretor sobre o tema. De qualquer forma, a virulência do debate, o engajamento dos debatedores, a convicção de que a luta se trava duramente no plano do simbólico, mostram uma vivacidade inesperada da cultura brasileira. Em 2017, o cinema brasileiro andou na contramão do marasmo e da desesperança do resto da sociedade. 

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