Publicado 26 de Janeiro de 2018 - 17h03

Por Do Correio

Relato de Marcos Sá sobre adoção.

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Relato de Marcos Sá sobre adoção.

ANJOS

"Quando abri os olhos, não gostei do que vi. Sentia muito frio, fome e minhas duas irmãzinhas, tiritavam de medo ao meu lado. Carros passavam espirravam barro e água e o barulho era intenso. De vez em quando algumas criaturas estranhas, jogavam pedras e paus em nós e pareciam se divertir com a nossa dor. Cheiros estranhos penetravam nas minhas narinas e me enjoavam as entranhas. Sentia dor no umbigo, nas pernas e em lugares do meu corpo que não sei dizer o nome. Meu estomago queria fechar de ausência. Um vazio enorme dominava minha mente e eu não conseguia pensar em nada, mesmo porque não sabia quem eu era e não tinha ninguém para me defender. Minhas irmãs choravam de pavor. Com olhar esbugalhado, assustadas imploravam para que eu fizesse alguma coisa. Eu mal conseguia mover as pernas. Meus comandos não me obedeciam e trôpega eu não parava em pé. Minha saliva engrossava na medida em que o pânico dominava o meu ser.

Lembro-me que nós três sentíamos uma enorme sensação de abandono e nosso instinto de sobrevivência nos empurrava uma contra outra. Literalmente. Era como se, ficando muito juntas, ficaríamos vivas. Tínhamos um impulso enorme de grudarmos uma nas outras, tal como siamesas separadas pela dor. Sabe quando você é criança, tem medo durante a noite e corre para a cama dos pais? Aí você se enfia no meio dos dois e se sente superprotegido! Mas logo eles adormecem e você continua acordado. E com medo. Como numa volta à barriga da mãe dá vontade de retornar a placenta se apertando em conchinha no corpo materno. Era como nós três nos sentíamos. Mas sem ninguém para nos chamar de filha. Sem pai nem mãe, órfãs de nascimento. Abortadas após o parto, abandonadas nativivas. Era por nossa conta, nós conosco mesmo. Fazer o que? Quem era eu? Como fomos parar naquele lugar? Onde estariam meus pais? Quem seriam eles? Foram dias e dias de sofrimento. Minhas esperanças se esgotavam, estávamos traumatizadas em estado de choque, moribundas e em frangalhos. Uma das minhas irmãs tinha um ferimento, provocado por uma paulada gratuita desferida por uma daquelas estranhas criaturas. A fome e o desespero tomavam conta de nós três. Achamos que estávamos no inferno e de vez em quando um capeta vinha nos maltratar.

Foi quando um anjo surgiu. Disfarçado de gente, nos enrolou num cobertor, colocou-nos numa camionete e nos tirou dali. Eu não sabia o que se passava, e assustada fiz xixi no anjo.

Quando acordei, gostei do que vi. Estávamos limpas, com os ferimentos tratados e sendo alimentadas juntamente com outras iguais a nós, numa espécie de hospital. Mas ainda tínhamos medo. Desconfiadas nós três continuávamos grudadas umas as outras e olhávamos tudo ao redor com olhar de pavor. Pouco a pouco mais anjos apareciam e sempre nos tratavam com amor. Começamos a nos sentir confiantes. Alimentadas, higienizadas, medicadas, tratadas com amor e sob cuidados angelicais achamos ingênuas que estávamos no céu. Será que morremos as três? Descobrimos que continuávamos na terra quando vimos o sofrimento de vários amiguinhos que estavam se recuperando de graves ferimentos ao nosso lado e presenciamos a morte de alguns deles, apesar dos esforços diários dos anjos para salvá-los. Se eles morreram, então nós só podemos estar vivas. Que mundo estranho esse em que vivemos! Criaturas malignas nos causam gratuitamente sofrimento e dor, e anjos caridosos nos socorrem doando-se voluntariamente na esperança de um mundo melhor!

Filosofava eu sobre a insanidade humana, quando o anjo-chefe apareceu. Junto com ele vinha alguém que nos olhava curiosamente. Eu e minhas maninhas grudadas uma as outras queríamos entrar na parede atrás de nós. Ambos trocaram algumas palavras e logo depois fui separada das minhas irmãs. Senti carinho no olhar do visitante, mas a emoção de deixá-las para trás, reacendeu em mim o medo da solidão. Foi a última vez que eu as vi e acho que nunca mais as verei. De tristeza fiz xixi no colo do meu visitante. Descobri logo depois que estava sendo adotada. Levaram-me a um lugar, onde tudo era novo para mim. Um enorme e simpático anfitrião me aguardava com uma alegria infindável. Ele me mostrou todos os esconderijos e seus lugares preferidos na casa, ensinou-me muitos truques e hoje quase tudo o que eu sei devo a ele. Ele virou minha referência no mundo e diariamente me ajuda a superar meus traumas. Na minha nova família, tem também uma velhinha simpática, que de vez em quando eu resolvo amolar. Ambos têm uma enorme paciência comigo, do tamanho do coração deles. Meu novo dono de vez em quando me dá umas broncas, mas adoro fazer festa para ele.

Eu sou a popular Filó, ou Filomena para os não chegados. Sou uma vira-lata de raça, ex-cão de rua sem teto, sem eira nem beira com apenas 6 mesezinhos de vida. Hoje vivo muito feliz! Meu anfitrião é o Dôggo. Um baita de um labrador marron de 50 kg, com cara de bonzinho. A velhinha simpática é a Clara, uma labrador com 15 anos, mas com corpinho de 10. Os anjos pertencem a uma ONG da Granja Viana. Minha história é verdadeira. Ainda faço xixi quando me emociono, mas acho que isso vai passar quando eu crescer..."

Marcos Sá

Diretor comercial do grupo RAC

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