Publicado 25 de Julho de 2016 - 19h03

Por Inaê Miranda

ÍíOBSERVAÇÃO: Usar “A travesti”, no feminino (pedido da autora)

FOTOS: Divulgação

Inaê Miranda

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Desde que se assumiu travesti, aos 29 anos, Amara Moira vem trilhando um caminho de descobertas. Prazer, medo e um turbilhão de emoções marcam sua busca por um lugar no mundo. Encontrou na prostituição o primeiro espaço de acolhida e durante mais de um ano as pessoas com quem se relacionou foram clientes. “Senti a necessidade de me prostituir para lidar com o vazio emocional, com a solidão, com sentimento de que não tinha lugar para mim no mundo”. Doutoranda pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Amara lança no dia 15 de agosto, em Campinas, o seu livro “E se eu fosse puta”.

Já em pré-venda pela Livraria Cultura, a obra traz um relato autobiográfico da transição de Amara nos últimos dois anos, sua construção enquanto mulher, seu empoderamento pessoal e as experiências como profissional do sexo. Ativista, ela também vê em seu livro uma ferramenta de humanização das prostitutas trans e se coloca na luta por melhores condições de trabalho, melhor remuneração e pelo fim do estigma entorno do assunto.

“Quando me perguntam porque demorei tanto tempo para me posicionar e me assumir como Amara, a resposta tem muito a ver com o medo da vida que teria pela frente”. Amara já cogitava a prostituição e o assunto a perturbava justamente porque conhecia a realidade de travestis prostitutas. “Não eram prostitutas daquelas que ganhavam rios de dinheiro. Que eram respeitadas, que moravam nos bairros nobres da cidade. Eram dessas que ganhavam migalhas, viviam em lugares precários, trabalhavam em condições terríveis, e que eram apontadas nas ruas”, diz.

“Pensar que de repente eu poderia perder tudo que tinha construído até ali e ser jogada à margem assim era algo que me apavorava”.

Justamente nesse espaço tão marginalizado, Amara foi acolhida em um momento de carência. “Aquele caos emocional, eu precisando de um abraço, de me sentir querida e desejada e o único lugar que tinha para isso era quando ia visitar minhas amigas. Aí vinha aquele assédio todo na rua e eu falava que não era prostituta e eles não acreditavam”. O assédio era agressivo e invasivo, mas, ao mesmo tempo mexia com Amara, pois naquele momento se sentia bonita e desejada. “Era um paradoxo: de um lado, parte da sociedade não podia demonstrar desejo por mim e onde demonstravam era de forma invasiva e muito violenta”.

Campineira, Amara decidiu compartilhar suas experiências em um blog e agora no livro porque pensou que poderia não ser apenas um drama só seu. “Outras pessoas poderiam estar se reprimindo e se machucando por conta da vontade de transicionar. Escrever sobre isso seria uma forma de entender melhor o que eu estava passando e ao mesmo tempo ajudar outras pessoas que passavam pelo mesmo processo”.

Ela diz que uma das razões para a sociedade ser tão discriminadora com travesti e prostituta é o fato de não serem vistas como figuras humanas. Amara também busca contar sobre os clientes nos livros. “Como eles nos tratam, como se comportam, como é que eles são quando estão lá a portas fechadas e luzes apagadas. A gente cria homens que publicamente vestem a máscara da virilidade e ali no quarto querem se sentir dominados, passivos, encurralados. É muito interessante como eles se comportam quando tiraram a máscara que usam socialmente”.

Doutoranda em crítica literária pela Unicamp, onde estuda “o intraduzível em Ulysses”, de James Joyce, Amara diz esperar que, além dos aspectos sociológicos, o seu livro seja apreciado como uma boa narrativa. “Não é só um livro de memórias. Espero que possa ser considerado literário, que as pessoas gostem da leitura, se divirtam. Também quero mostrar que as travestis e prostitutas sabem escrever, podem estampar seus livros em grandes livrarias e podem contar suas próprias histórias”.

Frase:

“Ali parecia que era um dos poucos lugares que havia para eu viver. Para eu descobrir meu corpo, para eu descobrir a minha sexualidade” (Amara Moira).

Saiba Mais:

A obra tem o prefácio de Indianara Siqueira e posfácio de Monique Prada, duas importantes figuras na luta pela visibilidade de prostitutas no Brasil e traz tirinhas especiais da cartunista Laerte Coutinho. O lançamento oficial será na Livraria Cultura, no Centro do Rio de Janeiro, no dia 2 de agosto. Na sequência será lançado na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, dia 9 de agosto, às 19h. Em Campinas, a data já está definida, dia 15 de agosto, mas o horário e local ainda não estão fechados.

Ficha técnica

Título: E se eu fosse puta

Autora: Amara Moira

Editora: Hoo Editora

N.º de páginas: 216

Ano: 2016

Valor: R$34,90

Escrito por:

Inaê Miranda