Publicado 22 de Julho de 2016 - 22h11

Por Inaê Miranda

ÍíFOTOS: Arquivo

Inaê Miranda

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

[email protected]

A reposição dos médicos cubanos no programa Mais Médicos traz incertezas e preocupações à Região Metropolitana de Campinas (RMC), onde há cerca de 150 profissionais. Eles chegaram entre 2013 e 2014 para um contrato de três anos, que começa a se encerrar agora. O governo brasileiro pediu a renovação por mais três anos, mas, em reunião com o governo cubano e com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) no dia 15 de julho, ficou acordado que o primeiro grupo de médicos a chegar deve permanecer no País até novembro e, na sequência, eles serão substituídos, garantindo o atendimento à população durante as olimpíadas e no período eleitoral. Cuba também quer renegociar o valor das bolsas. O Ministério da Saúde informou que as reivindicações financeiras estão em análise.

Atualmente, o Mais Médicos conta com 18,2 mil profissionais em todo o Brasil e 62% deles, o correspondente a 11,4 mil, são cubanos, 1,5 mil são formados no exterior e os demais são brasileiros. Eles atuam na assistência básica e recebem uma bolsa de R$ 10 mil. No caso dos cubanos, o valor é repassado ao governo, que paga seus profissionais cerca de R$ 3 mil. Na reunião com o governo brasileiro, Cuba solicitou o reajuste das bolsas para compensar a inflação e a desvalorização da moeda local. Em abril, a presidente afastada Dilma Rousseff chegou a editar uma medida provisória, que prorrogava a participação dos médicos cubanos por mais três anos, que agora está em discussão. A preocupação é que os 11,4 mil médicos deverão deixar o Brasil até meados ano que vem e precisarão ser substituídos em um período de seis meses.

Algumas prefeituras da RMC, a população e os próprios profissionais demonstram preocupação com a situação. Em Pedreira são apenas três médicos, mas a Secretaria de Saúde já está apreensiva e teme prejuízos no atendimento, “pelo desfalque das equipes e pela impossibilidade de substituição”. Em Nova Odessa, são nove cubanos. A diretora de Saúde Básica, Glaucia Blumer Paulon, disse que ainda não há um posicionamento oficial sobre a renovação do convênio e que o município está em contato constante com a coordenação regional do projeto, pois tem interesse na renovação. “Estes profissionais são muito bem-vindos, pois, além de atenderem bem os nossos pacientes nas UBSs (Unidades básicas), têm importante contribuição para ajudar a desafogar o atendimento na rede pública de saúde, evitando que estes pacientes tenham que se dirigir ao pronto-socorro”, afirmou.

Em Campinas são 72 médicos cubanos de um total de 79 profissionais que fazem parte do programa. De acordo com a Secretaria de Saúde, eles atuam nos cinco distritos de Saúde: 12 na região Leste, 12 na região Noroeste, 18 na Norte, 15 na Sudoeste e 22 na região Sul. De acordo com a assessoria de imprensa, a Secretaria de Saúde não recebeu nenhuma orientação oficial do Ministério da Saúde e seguirá as indicações do governo federal. A Prefeitura de Itatiba, que conta com seis profissionais, informou que aguarda decisão do governo federal sobre a continuidade dos médicos e que a população atendida por esses profissionais será a mais afetada caso haja a saída, “principalmente em relação ao vínculo já criado por eles nas unidades em que atuam”. Até o momento, dois médicos cubanos demonstraram interesse em permanecer em Itatiba.

A reportagem conversou com um médico cubano que não quis se identificar já que os profissionais receberam orientação expressa por e-mail de que era proibido falar com brasileiros sobre os prazos de saída do País. Ele reclamou da falta de informação. “Só falaram, na pouca informação que nos forneceram, que por uma questão de estratégia política não iam deixar os médicos renovar por mais três anos. O Brasil estava pedindo a renovação porque os médicos que já estão aqui conhecem o sistema, o idioma, os pacientes. O governo cubano só respondeu que por questão de estratégia política ia trocar todos os médicos”.

De acordo com o profissional, o prazo de saída do grupo chegou a ser antecipado e alguns até foram desligados. “Tinham informado através do Ministério da Saúde que os prazos de saída iam se adiantar. Que quem fosse sair em outubro sairia em julho e quem fosse em novembro, viajaria em agosto. Chegou julho e ninguém falou para esses que iam sair, se eles voltariam para Cuba ou não. Depois falaram que deveriam se manter trabalhando. Outros chegaram a ser desligados e ficaram em casa aguardando, depois tiveram que abrir as vagas para esses médicos se incorporarem de novo ao programa. Há uma total desinformação, mas acho que a responsabilidade maior de nos informar é do meu País”, afirmou.

O médico chegou a Campinas em novembro de 2013 e disse que voltará para Cuba em novembro com o desejo de continuar desenvolvendo o trabalho iniciado na cidade. “Gostaria de ficar, de ver os frutos do trabalho iniciado aqui”. Ele contou que os primeiros dois anos foram de adaptação e aprendizado. “A gente chegou numa unidade com uma população grande e poucos médicos, onde o agendamento de uma consulta demorava seis meses. Quando chegamos, o tempo de espera ficou menor. Conhecemos a população e ela sentiu que estava sendo mais cuidada para enfrentar qualquer problema de saúde. E agora a retirada é complicada”.

Outro lado

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que o programa Mais Médicos está assegurado, assim como as reposições dos profissionais. No caso dos médicos cubanos, a substituição é feita diretamente pela com o governo de Cuba. Na última semana, desembarcaram no país 50 médicos cubanos e a previsão é que mais 500 cheguem nesta semana e outros voos nos próximos dias. “A manutenção do Programa Mais Médicos está assegurada. É um compromisso do ministro da Saúde, Ricardo Barros, fortalecer a participação dos brasileiros no Mais Médicos e, enquanto houver necessidade e vagas a serem preenchidas, manter o convênio com a OPAS para o provimento de médicos no país. Dessa forma, o Ministério da Saúde reforça que não haverá desassistência nos municípios que participam da iniciativa”, diz nota.

QUADRO:

Americana, Paulínia, Valinhos, Vinhedo e Holambra não têm médicos cubanos atuando na cidade.

Pedreira tem 3 médicos cubanos

Santa Bárbara D’Oeste tem 7 médicos cubanos

Sumaré tem 10 médicos cubanos

Hortolândia tem 24 médicos cubanos

Campinas tem 72 médicos cubanos

Nova Odessa tem 9 médicos cubanos

Itatiba tem 6 médicos cubanos

Indaiatuba tem 4 médicos cubanos

Cosmópolis tem 9 médicos cubanos

Engenheiro Coelho, Monte Mor, Jaguariúna, Morungaba, Artur Nogueira e Santo Antônio de Posse não informaram até o fechamento desta edição.

RETRANCA:

O olhar atento dos médicos cubanos e ouvido apurado para receber as demandas cativaram os pacientes brasileiros. Em um Centro de Saúde de Campinas, o médico Gustavo Marcelo Martìnez, é abordado no corredor por usuários que desejam tirar dúvidas, pegar receitas ou pedir uma orientação. Atencioso, Martìnez não deixa ninguém sem resposta. “No começo, algumas pessoas ficavam cismadas. Vínhamos de um país comunista e para muitos trazíamos a bandeira do comunismo. Mas não viemos para fazer política. Viemos para ajudar”, disse.

Mas a cisma não durou muito tempo. “A população já se adaptou a nós, ao nosso soaque e aceita bem hoje. Falam que não quer que a gente volte para Cuba, que a gente continue no programa, mas não depende de nós. Eu ficaria, mas tenho saudade da minha família, da minha terra”, disse ele que veio em 2014, deixando os dois filhos e a mulher em Cuba. Martìnez visitou a família duas vezes em férias, mas o tempo não foi suficiente para matar a saudade. “Tenho amigos que querem continuar trabalhando aqui, muitos ainda não tem família constituída, então, para eles é mais fácil”.

Enquanto a hora de partir não chega, Martìnez segue dando assistência aos pacientes e aprendendo um pouco mais sobre a cultura brasileira. “Gosto da diversidade da música brasileira. Tem os clássicos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Betânia, Roberto Carlos e agora estou tendo o contato com outros artistas como Seu Jorge, Cássia Eller, Tim Maia Raça Negra, Revelação, Rick e Renner”, contou.

Daniel Eduardo de Paula Moraes, de 34 anos, trabalha como vigilante da unidade onde Martìnez atende há duas semanas e fez amizade com o médico. “Fazia dois ou três dias que eu estava aqui e ele prestou atenção nessa ferida que tenho no rosto e disse que ia me dar um encaminhamento para tratar ela. Acho que eles (cubanos) são muito solidários. As pessoas param eles no corredor, cumprimentam, tiram dúvidas”, disse. José Roberto Souza é paciente e diz que gosta do atendimento feito pelos cubanos. “Passo por uma médica. Acho ela atenciosa. Passou medicações adequadas, pediu todos os exames”. Ele diz que o ideal seriam os brasileiros atenderem a população. “Se eles se negarem, devemos manter os cubanos”.

Escrito por:

Inaê Miranda