Publicado 22 de Julho de 2016 - 16h36

Por Alenita de Jesus

Alenita Ramirez

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Foto: Patrícia Divulgação

Calado, tranquilo e acima de qualquer suspeita. Assim define os moradores de Amparo que conheceram ou tiveram contato com Zaid Mohammad Abdul Rashmon Duarte, nascido Marcos Márcio Duarte, de 37 anos, preso pela Polícia Federal (PF) anteontem de manhã, em Campinas, suspeito de envolvimento com islamismo e na preparação de atentado terroristas. Duarte, que é natural de São Luís do Maranhão, morava em Amparo, mas trabalhava como entregador em uma empresa do ramo de alimentação, no Jardim Ipaussurama, em Campinas, onde foi preso."Era um cara normal. A notícia de que ele tinha envolvimento com o islamismo nos pegou de surpresa. A gente sabe que ele não ia fazer nada para nós", disse o comerciante Rodrigo Ferreira, de 29 anos, dono do Bar do Ponto, no centro da cidade e onde Zaid frequentava quase todas as manhãs para tomar pingado com pão na chapa. “Ele sempre sentava no mesmo local, na mesa que fica de frente para a porta. Sentava só. Ficava uns 10 minutos e saía”, contou.

Apesar de a Operação Hashtag ter ocorrido logo no início da manhã em pelo menos dois bairros de Amparo, os amparenses só tomaram conhecimento de que um de seus moradores é suspeito de terrorismo no final da tarde. “A gente viu as viaturas passando pela rua e indo para o Parque das Aves, mas nem sabíamos do que se tratava. Imaginávamos que era tráfico, nunca passava pela cabeça se tratar de terrorista”, disse um morador que não quis ser identificado.

Nas rodas de conversas pela cidade, o assunto do dia era a prisão do rapaz calado. Alguns não deram muita importância, mas a maior parte dos moradores estava assustada. "Estou em choque. A gente imagina essa coisa de terrorista lá longe, do outro lado do mundo, não aqui pertinho da gente", disse a auxiliar de produção Goretti Ribeiro, de 51 anos.

O trabalho da PF na cidade começou por volta das 6h. De acordo com moradores, os policiais se reuniram em uma padaria na região central logo cedo para definir a estratégia de trabalho.

Um dos primeiros bairros a ser visitado foi o Chácara Zanarella. Segundo moradores, nos últimos tempos, Duarte era visto constantemente na casa de dois amigos na Travessa Vasco de Toledo, na Chácara Zonarella.

A dona de casa Valda Ângelo da Silva, de 64 anos, mora ao lado do imóvel revistado pela PF. "Foi um susto grande. Os policiais gritavam para abrirem a porta. Achei que fosse na minha casa", contou a idosa que conhecia de vista o suspeito. "Nunca imaginei que o rapaz estivesse envolvido com terrorismo, aliás nem sei o que é isso", disse.

Na casa onde o rapaz frequentava, os rapazes colegas de Duarte não quiseram falar com a reportagem do Correio Popular. Ao perceberem a presença dos repórteres, fecharam as janelas e falaram que não conheciam ninguém.

A informação de alguns anônimos é a de que na casa há sempre alguém estrangeiro, estilo árabe.

A reportagem tinha a informação inicial de que a prisão de Duarte teria ocorrido no bairro São Dimas, logo na entrada da cidade. Por lá também houve o cumprimento de um dos mandados de busca e apreensão.

Moradores do bairro São Dimas afirmam que Duarte era visto no local sempre e que ele chegou a morar lá por duas vezes, sendo a primeira há cerca de cinco anos. Ele sempre estava só e era visto com uma bolsa preta atravessada no ombro.

Dona de uma padaria no bairro, Ângela Nardini de 50 anos disse que Duarte costumava passar no local sempre e comprar pães. "Ele era muito fechado e de pouca conversa. Um dia puxei assunto e ele só respondeu o que eu perguntei. Ele falava enrolado, não dava para entender muito", contou.

Segundo os moradores, o bairro é conhecido por abrigar muitos árabes, já que boa parte deles trabalha para a empresa JBS (antiga Pena Branca), que fica nas margens da Rodovia João Beira (SP-095). "Agora estamos com medo. A gente não sabe se todos são iguais ao rapaz preso", disse uma balconista que não quis ser identificada.

O aposentado Pedro Cristiano de Souza, de 77 anos, alugou uma casa para Duarte há pelo menos 4 anos. Na época ele ficou no imóvel cerca de um ano. Nesse período morou sozinho. "Nunca me deu trabalho. Pagava em dia. Era sempre calado", contou o idoso. "Confesso que não. Estou com medo, mas apreensiva", disse a neta do aposentado, a balconista Paula Cardoso.

Para os moradores de Amparo, o suspeito era árabe.

DADOS

Nascido no dia 8 de maio de 1974, Duarte se converteu ao islamismo há 13 anos. Nascido e criado na cidade Ilha de São Luís do Maranhão, ele era consultor Halal, idealizador, fundador, vice-presidente e Emir da Sociedade Islâmica do Maranhão.

Sobre a operação

Anteontem, a Polícia Federal desarticulou um grupo envolvido na promoção do Estado Islâmico e na preparação de atentados terroristas e outras ações criminosas. Intitulada Hashtag, a operação policial foi a primeira após a publicação da Lei Antiterrorismo brasileira que entrou em vigor em março deste ano. Dentre os dez presos na ação, quatro foram detidos no Estado de São Paulo, sendo um em Campinas segundo informações levantadas pela reportagem e que não foram divulgadas oficialmente pela PF, que classificou a investigação como sigilosa. Cerca de 130 policiais participaram da operação.

Segundo a PF, os investigadores acompanhavam desde abril as redes sociais através da Divisão Antiterrorismo da Polícia Federal (DAT), já que participantes de um grupo virtual denominado Defensores da Sharia planejavam adquirir armamentos para cometer crimes no Brasil e até mesmo no exterior. Eles também usavam aplicativos como WhatsApp e Telegram por onde manifestavam apoio aos atos terroristas praticados em outros países e, por conta dos Jogos Olímpicos, planejavam atacar o Brasil.

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Alenita de Jesus