Publicado 18 de Julho de 2016 - 20h08

Por Inaê Miranda

FOTOS: Élcio

Inaê Miranda

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Estudantes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) estão tendo as notas do primeiro semestre zeradas em diversas disciplinas. O problema está sendo relatado especialmente nos institutos de Física e de Química. Os alunos favoráveis e contrários à greve questionam as notas, já que não fizeram as provas nem receberam todo o conteúdo do semestre. Os professores alegam que foram impedidos de aplicar os exames. Aos estudantes, alguns docentes justificaram que precisaram colocar a nota no sistema da Diretoria Acadêmica (DAC) para não sofrer sanções. Além de ‘manchar’ o currículo, a reprovação por nota zero pode prejudicar os planos de quem pretende fazer intercâmbio, conseguir uma bolsa de estudo ou mesmo concluir a graduação.

Em uma rede social, o estudante Leandro Sagradim reclama que 100% da turma foi reprovada na disciplina QG100, “porque a prova não foi aplicada devido à "greve"/piquetes. O professor disse que precisa colocar uma nota no sistema da DAC para não sofrer sanções”. Os docentes então resolveram zerar a prova dois e o exame. O estudante disse que acionou as ouvidorias do Instituto de Química (IQ) e da Unicamp, mas até o momento não teve resposta. “Não querem fazer avaliação online, não querem substituir prova por trabalho. Tudo em nome da qualidade do ensino. Só que tiveram um mês para pensar em uma solução para chegar no último dia e falar que ia zerar todo mundo”, reclamou.

A estudante Ana Elisa Carneiro disse que não se trata de um caso isolado e que a medida dos professores vai contra o regimento da DAC e contra a lei. Uma aluna no IQ que preferiu não se identificar disse que teve a prova zerada em duas disciplinas e que tem casos em que uma ou duas pessoas fizeram as provas e o restante da turma teve a nota zerada. “Zeraram a turma toda. A prova tem que ser a avaliação daquilo que a gente estudou e aprendeu e, da forma como está sendo dada, está sendo uma nota para alimentar o sistema da DAC”, disse. Um estudante da física que também não quis se identificar conta que teve uma disciplina zerada e afirma que os professores estão usando as notas como instrumento de punição dos alunos.

Professor do Instituto de Química, Ronaldo Pilli confirmou que zerou a nota de uma parte da turma porque não conseguiu aplicar as provas. “Fomos violentamente impedidos de ministrar aula, fui agredido na minha dignidade de professor duma forma que nunca imaginei. Dei oportunidade de fazer a terceira prova não presencial porque não tive oportunidade de fazer na sala de aula em razão dos piquete”, contou. Segundo Pilli, poucos resolveram a prova não presencial e os que não resolveram ficaram com zero. Uma parcela dos alunos que ficaram com zero – cerca de 40 alunos - foi para exame, presencial.

“Fui impedido de entrar na sala para aplicar o exame e zerei a nota daqueles que deveriam ter se apresentado. Poucos alunos foram fazer o exame. Então, não sei o que poderia fazer porque fui impedido de dar algumas aulas, de aplicar a prova e impedido com violência, me senti agredido e ultrajado na minha dignidade de profissional e não vou contemporizar. As provas estavam marcadas, os locais foram divulgados, se não pude aplicar não foi por minha vontade, foi por intransigência”, afirmou. O professor foi questionado sobre as reclamações dos estudantes quanto aos prejuízos acadêmicos e respondeu: “Eles que conversem com o comando de greve. Eu fui afetado”.

Alunos pedem providência

Sagradim disse esperar que a DAC tome conhecimento do problema e adote uma medida. “A mais certa seria alterar o calendário. Só que a ‘greve’ não parou e ninguém sabe porque ainda estão em greve”, reclamou. “Nós vamos buscar a revogação dessas notas, que elas não sejam validadas, porque não tem valor educacional e o prejuízo é para todos, especialmente para quem busca carreira acadêmica. A advogada do Diretório Central dos Estudantes disse que a partir do momento que informações falsas forem inseridas no sistema e que ela conseguir comprovar isso irá protocolar uma denúncia por falsidade ideológica. “As ementas não foram cumpridas e os professores não têm como aplicar avaliação. Se não tem como aplicar avaliação regular, tem menos ainda como aplicar exame, que é direito do estudante”.

Reitoria

Embora os docentes tenham admitido que zeraram as notas, a Unicamp informou por meio da assessoria de imprensa que, segundo levantamento da Diretoria Acadêmica (DAC), o sistema de notas e frequência da Unicamp não registrou nenhuma turma de QG100 com reprovação por nota zero. Informou ainda que o calendário letivo da Unicamp estabelece que o prazo para inserção de notas do primeiro semestre no sistema estará aberto até as 23h59 de hoje (19). E que o calendário também prevê um prazo adicional para retificação das notas já inseridas no prazo normal, caso necessário. Informou ainda que caso a disciplina não tenha sido concluída no período regulamentar, a Pró-Reitoria de Graduação e a Pró-Reitoria de Pós-Graduação têm orientado os professores a não inserir as notas no sistema, utilizando-se o prazo adicional para esta finalidade.

Greves

O movimento de greve e ocupação dos estudantes começou no dia 10 de maio. O movimento estudantil foi iniciado para tentar barrar o corte de despesas. As pautas eram também por ampliação da moradia estudantil, cotas étnico-raciais, entre outras demandas. Na sequência, professores e servidores entraram em greve. A greve dos docentes durou cerca de um mês. Após entrarem em acordo com a Unicamp para desocupar a reitoria, os estudantes decidiram manter o movimento de greve para garantir que os alunos grevistas não sejam punidos e que o calendário acadêmico seja alterado.

Ameaças

Estudantes do movimento de greve e ocupação da Unicamp denunciaram que estão sofrendo ameaças. As cartas com os dizeres “Piqueteiro, sabemos onde você mora. Fique esperto” e Piqueteiro, estamos de olho em você” foram deixadas na caixa de correio de um estudante e outra foi deixada embaixo da porta durante o final de semana. “É inadmissível essa perseguição política aos que estão lutando em defesa da educação. São ameaças que demonstram o desespero de pessoas que não respeitam às liberdades democráticas daqueles que estão lutando contra o elitismo da UNICAMP e defendendo pautas legítimas como as cotas, a permanência e a saúde. Seguimos firmes em nossa luta, não aceitaremos nenhuma punição e nem ameaças que infrinjam o nosso direito e liberdade de manifestação democrática”, afirmaram os estudantes na página do movimento de greve no Facebook. Com relação às ameaças relatadas por estudantes da Moradia Estudantil, a reitoria disse que vai averiguar o caso.

Escrito por:

Inaê Miranda