Publicado 12 de Julho de 2016 - 16h15

Por Alenita de Jesus

Alenita Ramirez

[email protected]

Fotos.: César

Após 20 horas, os cerca de 1,2 mil presos encerraram a rebelião na P-2 do Complexo Penitenciário Campinas/Hortolândia. Não houve mortos e feridos. Os três reféns foram liberados sem ferimentos. Apesar de o grupo fazer uma série de reivindicações, entre elas a troca dos diretores geral e de disciplina da unidade, a superlotação, a comida precária e maus-tratos contra familiares nas visitas, não houve acordo, segundo João Rinaldo Machado, presidente do Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo (Sifuspesp). “O juiz corregedor chegou e determinou um prazo de meia hora para os presos colocarem fim na rebelião. Eles obedeceram”, contou.

Segundo sindicalistas e funcionários, dos seis pavilhões que integram a P-2 e que contam com um total de 1.917 presos, quatro ficaram destruídos. Os rebelados colocaram fogos em colchões e quebraram portas e paredes das unidades. A rebelião começou por volta das 17h de anteontem nos pavilhões 3,4 e 6. O 5 estava fechado, mas depois de um certo tempo ele também foi arrombado pelos presos. Os de números 1 e 2 não participaram.

Familiares de presos passaram a noite em vigília, tanto no portão de acesso como em um barranco na lateral do presídio, com vistas para os pavilhões. No decorrer da manhã de ontem, houve momentos tensos de revolta por parte dos familiares, que queriam informações dos presos e também a presença de um representante dos Direitos Humanos. Eles chegaram a parar o trânsito na avenida em frente ao presídio por alguns minutos e depois o acesso ao complexo. Representantes da comissão dos Diretos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) chegaram no presídio por volta das 10h.

O Grupo de Intervenção Rápida (GIR) da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) acompanhou a rebelião do lado de fora da P2 e no início da manhã de ontem retomou as negociações.

O fim da rebelião foi anunciada por volta das 12h30 pelo juiz corregedor Bruno Paiva Garcia, quando deixava o complexo. “Acabou tudo. Os dois reféns foram liberados e todos estão bem”, disse.

A libertação do primeiro agente aconteceu por volta das 9h. Como os presos estavam sem refeição e água desde a tarde de anteontem, uma das exigências para a liberação de reféns era a entrega de água. O pedido foi aceito e um agente foi libertado. A vítima saiu do presídio em uma ambulância, mas funcionários e sindicalistas garantiram que ele passava bem, porém muito assustado com tudo.

Em seguida, os rebelados passaram a exigir comida para liberarem um segundo agente. Porém, o juiz corregedor chegou em meio as exigências. O almoço foi entregue depois.

Cerca de meia hora antes do fim do protesto, o GIR suspeitou que os rebelados faziam buracos nos pavilhões e se preparavam para fazer um “cavalo doido” - saída de um grande número de presos de uma só vez -, e se preparou para invadir a P-2, mas a medida foi suspensa com o anúncio do fim da rebelião.

O helicóptero Águia da Polícia Militar (PM) chegou a ser acionado e sobrevoou o presídio por cerca de 10 minutos.

Após se entregarem, os presos foram colocados no pátio, onde permaneceram para contagem. “Não sabemos o que será feito, pois os pavilhões destruídos terão que passar por reforma. Além disso, as unidades prisionais estão todas com superlotação”, disse Machado. “Não há previsão de transferências de presos”, frisou.

Vigília

Durante todo o tempo, desde a madrugada, as famílias dos presos não descansaram. Sempre em grupos, os parentes se revezavam entre a portaria e um barranco na lateral do presídio. “A noite toda a gente via fumaça, tiros e latidos de cachorros. A gente não sabe o que pode estar acontecendo lá dentro. Se tem alguém machucado”, disse uma mulher identificada apenas como Ana, parente de um preso.

Pelo barranco, o grupo se comunicava aos gritos com os presos, que também gritavam por pequenas janelas de dentro dos pavilhões. Eles estavam a cerca de 500 metros. “Opressão” e “Queremos a imprensa”, diziam.

Por volta das 9h, os familiares chegaram a levar pneus para o local para uma barricada na via, mas desistiram da ideia. A Polícia Militar (PM) fazia rondas constantemente no entorno.

Sem informações e revoltadas, um grupo de mulheres fez uma roda em frente a portaria e rezou em favor dos presos. Depois disso, dois agentes vieram até elas e pediram a presença apenas de duas mulheres. Eles passaram a dar informações de tempo em tempo para as duas representantes do grupo. A maioria exigia que alguém fosse no interior da penitenciária ver de perto se havia presos feridos, mas o pedido foi negado. A partir de então houve revolta e o grupo bloqueou o acesso de saída e entrada de viaturas. O portão foi fechado como medida de segurança.

Como forma de protesto, os familiares chegaram a bater nas viaturas que saiam com presos. Devido ao número de pessoas que fechou a via, a PM bloqueou a passagem de carros na via até que ela foi liberada pelo grupo.

Para acalmar a multidão que não deixava advogados de presos de outras penitenciárias e funcionários saírem, a advogada Eliane Colicigno, da Comissão de Direitos Humanos da OAB, foi até a portaria. “Não há feridos, eu garanto. Estamos aqui para garantir a integridade de todas as pessoas”, disse. Mesmo com o anúncio da advogada, o grupo não se conformou e seguiu em frente do portão.

Em nota, a SAP confirmou o fim da rebelião e disse que o Grupo de Acolhimento da Coordenadoria das Unidades Prisionais da Região Central prestou a assistência aos funcionários.

A SAP informou também que durante a rebelião, a segurança externa do local foi reforçada e no meio da madrugada policiais atiraram em direção ao pátio onde ficam os presos.

Escrito por:

Alenita de Jesus