Publicado 21 de Julho de 2016 - 19h20

Por Thaís Jorge


Carlos Sousa Ramos

"Deixei as crianças me ajudarem no comecinho da obra e foi uma ótima experiência para mim" - Jason Hulfish

Os desenhos feitos com lápis de cor e pregados nas paredes indicam uma atmosfera de felicidade. E demonstram a vocação transformadora do trabalho realizado no Hospital Sobrapar, que há 37 anos atende pacientes com deformidades de crânio e face. Alinhado a esse propósito, o artista plástico e designer norte-americano Jason Hulfish deu vida nova à brinquedoteca da instituição ao concluir, no dia 18 de julho, sua pintura em 3D no local. A arte com a assinatura de Hulfish foi o prêmio recebido em um concurso promovido pela organização Smile Train, cuja missão é divulgar a causa da fissura labiopalatina no mundo.

Conhecido por levar cores vivas e lúdicas a todo tipo de espaço, Hulfish tem artistas e esportistas famosos entre seus clientes e também ganhou visibilidade por sua participação no programa norte-americano Extreme Make Over Home Edition. A atração, transmitida nos Estados Unidos pelo canal EBC, reúne diversos profissionais para reformar por inteiro as casas de pessoas que precisam de uma mudança radical em seus lares. “Eu amo realizar trabalhos para clientes, mas desenvolver um projeto voluntário como esse é incrível. É uma sensação diferente e a recompensa que vem dos pacientes é maravilhosa”, diz. Para ele, a participação das crianças no processo é o momento mais cativante. “Apesar de eu falar muito mal português, a gente se comunica pela arte e, claro, pelo sorriso. Não precisamos de mais nada”, afirma.

De acordo com a presidente do hospital, Vera Lúcia Raposo do Amaral, a parceria com a Smile Train e, consequentemente, com Hulfish, contribui para a geração de consciência sobre fissuras labiopalatinas e para uma discussão mais ampla sobre o tratamento. “Aqui tratamos todos os tipos de deformidades craniofaciais e é importante que haja um espaço aberto para as pessoas conversarem sobre o assunto, se informarem. Esse tipo de ação ajuda muito nesse sentido, além de mostrar o ambiente lindo que temos aqui. Não é frio, nem triste, mas um lugar de transformação, amor e esperança em recomeços cada vez melhores”, define. “Jason compreendeu muito bem a proposta e entregou um trabalho emocionante às crianças. Somos eternamente gratos”, comenta.

O artista bateu um papo com a Metrópole sobre voluntariado e sua experiência no Brasil.

Metrópole – Como teve início seu envolvimento com o trabalho voluntário? De que forma essa ligação com o voluntariado lhe trouxe até o Brasil?

Jason Hulfish – É uma coisa que gosto muito de fazer e, para ser sincero, nem ao menos me lembro da primeira vez em que me envolvi com esse tipo de ação. Já vim quatro vezes ao Brasil e a primeira foi em Lajeado. Tenho um amigo próximo que trabalha na Smile Train e me contou sobre esse projeto do concurso, levando arte a hospitais que realizam os tratamentos. Topei na hora.

Por que a escolha pelo voluntariado em instituições que tratam a fissura labiopalatina? Há alguma familiaridade com o assunto?

Na verdade, não tenho familiaridade com o assunto. Acredito que a escolha foi porque era uma causa que estava próxima a mim por conta desse meu amigo. Mas, principalmente, porque a energia envolvida no voluntariado me contagia. Além disso, confio muito no trabalho realizado pela Smile Train e realmente acredito que a arte pode levar mais cor e alegria a qualquer lugar.

Na sua opinião, de que forma a arte colabora para o tratamento, o atendimento e o convívio entre os pacientes?

A arte é universal, sabe? E isso me ensina muita coisa. Ela não diferencia ninguém, não coloca barreiras em nada. O ambiente com referências artísticas ajuda no desenvolvimento criativo e na imaginação, envolvendo quem quer que seja. A arte é uma maneira de comunicação. Nos conectamos por meio dela por mais que não falemos a mesma língua.

Qual é o maior objetivo do trabalho realizado em Campinas?

Acredito que é chamar a atenção das pessoas para a causa da fissura de lábio e palato. E, além disso, estreitar o contato com os pacientes e suas famílias, interagir com as crianças. Isso é sempre muito bom.

As crianças chegaram a se envolver diretamente no processo de pintura e finalização da arte? Como foi?

Sim, e foi uma das melhores partes. É o que mais me contagia, sabe? Fico muito feliz quando elas participam, pegam as tintas e começam a pintar. Deixei as crianças me ajudarem no comecinho da obra e foi uma ótima experiência para mim. A gente se comunicava por meio de sorrisos.

Houve alguma experiência, em específico, que tenha lhe marcado durante todos esses trabalhos voluntários?

Muitas. Posso citar uma que aconteceu durante essa semana mesmo aqui no hospital (o artista esteve na instituição campineira entre os dias 15 e 18 de julho). Aliás, foram dois. O primeiro deles foi quando uma das crianças, uma garotinha, veio até a brinquedoteca para pintar o mural conosco. Ela não tinha os dois braços, então alcançou os pincéis com os pezinhos e começou a pintar. Fiquei impressionado com isso. Foi uma cena muito emocionante e bonita. A segunda cena foi com uma senhora de uns 60 anos que fez sua cirurgia de correção labiopalatina recentemente. Ela estava muito feliz, dizendo que finalmente poderia sorrir e usar batom. Simples e gratificante.

Qualidade de vida é a missão

Em funcionamento há 37 anos, o Hospital Sobrapar conta com uma equipe interdisciplinar que busca não apenas corrigir as deformidades craniofaciais, mas também integrar os pacientes à sociedade, promovendo o bem-estar por meio de uma atuação humanizada, ética e de qualidade. Embora seja uma instituição predominantemente pediátrica, também atende adultos vítimas de doenças na face e de acidentes com sequelas no crânio e na face.

Escrito por:

Thaís Jorge