Publicado 10 de Julho de 2016 - 5h00

Por Marita Siqueira

CIS-Guanabara sedia projetos culturais e sociais:

Dominique Torquato/AAN

CIS-Guanabara sedia projetos culturais e sociais: "O bairro acolheu muito bem o centro e gostaríamos que os moradores o frequentassem mais?, diz o coordenador Odair Marques da Silva

As suntuosas árvores na Barão de Itapura; os paralelepípedos da Rua Sacramento; os postes com luminárias japonesas da Camargo Paes; a extinta Fábrica de Chapéus Cury; a contemporânea aglutinação de clínicas médicas; a agitação durante a semana; o silêncio que surge aos domingos. Saudosas ou atuais, essas são imagens latentes quando se pensa no bairro Guanabara, nas regiões central e Norte de Campinas. Antes de resenhar sobre marcos, ícones e a memória do bairro, vale uma posição geográfica. O Guanabara faz limites com Cambuí, Botafogo, Chapadão e Taquaral, englobando em seu território Vila Itapura, Jardim Brasil, Vila Angelino Rossi e Jardim Novo Botafogo.

Foto: Dominique Torquato/AAN

    Patrícia Ceroni Scarabelli, autora do livro Arrabalde do Guanabara - Um Bairro em Campinas: transformações

Patrícia Ceroni Scarabelli, autora do livro Arrabalde do Guanabara - Um Bairro em Campinas: transformações

Dono de muitas histórias, encantos e vivacidade, o local atraiu as atenções da arquiteta Patrícia Ceroni Scarabelli, que no livro Arrabalde do Guanabara – Um Bairro em Campinas (Editora Pontes, 2015) aborda as transformações da região. “O Guanabara tem uma expansão urbana muito interessante. Até o final do século 19, era uma área de charco. Havia uma bica famosa onde existe hoje um posto de gasolina na confluência da Brasil com a Orosimbo Maia. As pessoas iam buscar água, lavar roupa. Era um ponto de encontro”, conta Patrícia, revelando que o projeto prevê o lançamento de mais dois volumes como continuação.

Baseada em documentos históricos colhidos nos acervos municipais, Patrícia constatou que até o período da instalação de ferrovias e o crescimento da economia cafeeira, na segunda metade do século 19, o Guanabara era um local de passagem entre as áreas rurais e urbanas de Campinas, onde havia duas grandes estradas: Fazendeiros para Limeira, hoje Avenida Brasil, e a Guanabara, agora Rua Dona Libânia, que se unia à anterior. Essas eram as únicas vias até 1880.

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“A cidade estava crescendo quando veio a febre amarela e muitas pessoas mudaram para outros lugares ou morreram. Naquele momento, houve uma mudança de característica de algumas regiões, entre elas o Guanabara, que passou a ser a área dos grandes boulevards e palacetes. Isso já no início do século 20, quando começaram os loteamentos planejados. Hoje, o Guanabara é um bairro muito bem estruturado”, afirma a arquiteta. O pontapé inicial para as modificações da estrutura urbanística foi dado com a implantação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, em 1875, cujo perímetro que a ligava ao Córrego do Serafim (na Orosimbo Maia) abrigava as terras dos barões de Itapura e Geraldo de Resende, grandes fazendeiros que batizam duas das principais vias do bairro.

Foto: Dominique Torquato/AAN

Prédio Alcides Carvalho foi tombado pelo Condepacc em junho

Prédio Alcides Carvalho foi tombado pelo Condepacc em junho

A casa do IAC

Antes chamada de Boulevard Itapura, a Avenida Barão de Itapura foi aberta em 1886 como Linha C do bonde que ligava o bairro ao Centro. Sua importância foi firmada definitivamente com a fundação, um ano depois, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), por ordem do imperador Dom Pedro II. O terreno da instituição pertencia ao Barão de Itapura, que o doou.

Desde sua criação, o IAC tem importante papel nas transformações urbanas de Campinas e foi pioneiro no progresso da ciência, da tecnologia e da inovação de produtos agrícolas no País. Foi criado para estudar o café, que se expandia pelo Brasil no século 19. Atualmente, embora o grão continue sendo o protagonista, o instituto soma 99 espécies de plantas e avanços com 1.024 cultivares por meio de melhoramento genético funcional.

Foto: Dominique Torquato/AAN

Terreno do IAC foi doado pelo Barão de Itapura: instituição pioneira no progresso da ciência, da tecnologia e da inovação de produtos agrícolas no País

Terreno do IAC foi doado pelo Barão de Itapura: instituição pioneira no progresso da ciência, da tecnologia e da inovação de produtos agrícolas no País

No dia 14 de junho, o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) aprovou o tombamento do Prédio Alcides Carvalho, o único do IAC que não havia passado pelo processo. Na sede existem outros patrimônios tombados: o edifício Conselheiro Antônio Prado, o prédio Franz Wilhelm Dafert, a Casa do Diretor e o Edifício D. Pedro II, além das Casas de Vegetação (estufas). Todos já foram restaurados, exceto o edifício Antônio Prado. De acordo com o assessor da diretoria, Carlos Eduardo de Castro, o processo de licitação para o restauro da construção teve início este ano.

O Conselheiro Antônio Prado e seu “irmão” Franz Wilhelm Dafert têm quatro pavimentos e escada central de acesso, com volumetria pesada e características art déco. Ambos foram construídos em 1935. “O prédio é representativo do período do Estado Novo e contemporâneo do edifício do Palácio da Justiça, de 1939, e do prédio dos Correios e Telégrafos, no Centro de Campinas”, explica o engenheiro Hebert Faustino.

 

Foto: Cedoc

Fábrica de Chapéus Cury, mundialmente famosa por ter criado o chapéu que Harrison Ford usou na série Indiana Jones: funcionou de 1920 até 2012

Fábrica de Chapéus Cury, mundialmente famosa por ter criado o chapéu que Harrison Ford usou na série Indiana Jones: funcionou de 1920 até 2012

Símbolo memorável

Perpendicular à Barão de Itapura está a Barão Geraldo de Resende, que abriga outro símbolo do Guanabara: a Fábrica de Chapéus Cury. Mundialmente famosa por ter criado o chapéu que o ator Harrison Ford imortalizou nos filmes da série Indiana Jones, a Cury foi fundada em 1920 por Miguel Vicente Cury e funcionou até 2012 na base da produção artesanal e abastecida por uma caldeira, como outrora.

O prédio de número 142 e a chaminé foram tombados pelo Condepacc há sete anos. O terreno tem aproximadamente 5,3 mil metros quadrados e ocupa praticamente todo um quarteirão. Doutor Miguel, como era conhecido o proprietário, era um caixeiro de loja e foi prefeito de Campinas por duas vezes (1948-1951 e 1960-1963).

Se a fábrica está inativa, o botequim vizinho, onde operários costumavam tomar café da manhã antes de pegar no batente, está fugaz como nunca. “A Lu (sócia do bar) veio para cá em 1986 e eu cheguei três anos depois. A gente abria às 5h para atender ao pessoal da fábrica. Em 1998 começou a mudar um pouco o perfil, o bar passou a ficar aberto até mais tarde e servir a boemia do bairro. Cheguei aqui antes dos prédios, veja só, e hoje tive que me adequar a eles para não incomodar os moradores”, conta o dono, Fábio Guilherme Jorge.

Ainda na Barão Geraldo de Resende ficava o primeiro estádio de futebol de Campinas, o Estádio do Guarani, conhecido como Pastinho. No livro Guarani F.C.: Breve História, o escritor Moisés Cunha relata que o time, fundado em 1911, alugava o campo então utilizado pelo A.A. Guanabara e pelo S.C. Comercial (formado por comerciantes) pois era o melhor da cidade, “com traves de trilho, localizado em vasta área pertencente à família Souza Aranha”.

Sob a gestão de Carmine Alberti, o espaço de 20 mil metros quadrados foi adquirido pelo Guarani em 1920 por 900 réis o metro quadrado, segundo a obra. O terreno foi oficialmente transformado em estádio em 1923, como Estadium do Guarani, e serviu ao time pelos 30 anos seguintes. Curiosidades: o primeiro jogo do Bugre no local foi em 18 de junho de 1911 contra o Sport Club 15 de Novembro, quando perdeu por 3 a 0. A primeira vitória veio em 16 de julho, contra o Corinthians, por 2 a 0.

Foto: Dominique Torquato/AAN

CIS-Guanabara sedia projetos culturais e sociais: "O bairro acolheu muito bem o centro e gostaríamos que os moradores o frequentassem mais?, diz o coordenador Odair Marques da Silva

CIS-Guanabara sedia projetos culturais e sociais: "O bairro acolheu muito bem o centro e gostaríamos que os moradores o frequentassem mais?, diz o coordenador Odair Marques da Silva

Aliado na inclusão

“Na passagem do bairro de Guanabara, Km 5, foi construída uma casa para morada do guarda, e assentadas as porteiras, que funcionam desde agosto”, informa o relatório da Estação Mogiana de Estradas de Ferro de 15 de março de 1888. Três anos depois, era anunciada a construção da estação e do armazém de mercadorias no local chamado Guanabara.

Assim, em 1º de março de 1893, nascia a Estação Mogiana para desafogar o ponto junto à Companhia Paulista. Próxima ao Centro, a estação era a mais movimentada, abrangendo 13 linhas. A estrutura funcionou até 1974 e depois viveu um longo período de abandono.

O consumo de drogas e a violência predominaram por anos no local até que, em meados da década de 90, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ganhou o direito de posse e o termo de concessão de uso. Em 2006, era inaugurado o Centro Cultural de Inclusão e Integração Social da Unicamp, o CIS-Guanabara.

CIS-Guanabara sedia projetos culturais e sociais: "O bairro acolheu muito bem o centro e gostaríamos que os moradores o frequentassem mais?, diz o coordenador Odair Marques da Silva

O conjunto arquitetônico foi recuperado e desde então é palco de projetos culturais e sociais. “Apesar do abandono, conseguimos aproveitar algumas coisas originais. A estrutura foi restaurada e mantivemos a cor da pintura. Pisos, portas e janelas também são originais, assim como o Armazém do Café”, informa o coordenador do CIS, Odair Marques da Silva. “Melhorou a questão da periculosidade. As pessoas tinham medo de passar por aqui, os comerciantes colocavam guardas nas portas. O bairro acolheu muito bem o centro e gostaríamos que os moradores o frequentassem mais. Observamos que 90% das pessoas que utilizam o espaço são de fora”, diz.

Escrito por:

Marita Siqueira