Publicado 23 de Julho de 2016 - 19h05

Nos dias meio frios que têm feito me recolhi a um simpático botequinho no meio das árvores da Chácara da Barra para sorver franciscana taça de vinho, querendo mesmo ficar sozinho. Mas eis que de repente, não mais que de repente como no soneto, um velho conhecido dali mesmo do bairro surgiu do nada e sentou na minha mesa; para começar a contar que tinha brigado com o Nidruz.

— Que Nidruz? — Levantei as sobrancelhas.

— O Nidruz de Araçatuba.

— Ah, sim... — Recordei sem muita nitidez e ainda menos interesse — E o que houve?

— Ele tentou fazer uma intriga.

— Com você?

— Sim, claro, comigo. Envolvendo a minha noiva. Casaremos no fim do mês.

— Bem — suspirei – essas fofocas que envolvem mulher são, em geral, chatas.

— Pois é, e o Nidruz foi demais.

— Demais? — Demonstrei vago, diáfano, quase longínquo interesse.

— Veja você que ele chegou comigo e disse que minha noiva estava me passando pra trás.

— Diabo — me mexo na cadeira.

— Diabo digo eu! Até porque, veja bem, não poderia acreditar.

— Em que?

— Que a Nancy estivesse me passando para trás.

— Quem é Nancy?

— Minha noiva — ele crava o olhar nos meus óculos.

— Pois é — fico sem saber que comentário fazer – quer dizer que o Nidruz veio te contar...

— Que viu — ele interrompe — minha noiva com um cara, aos beijos e abraços, num banco do Centro de Convivência.

— O Nidruz disse que viu?

— Perfeitamente. E eu falei pra ele que não era possível, que devia estar enganado. Sabe o que o cretino me respondeu?

— Não faço a menor ideia.

— Respondeu que uma das poucas coisas boas de seu organismo é a vista.

— E você?

— Dei-lhe uma baita esculhambação. Garanti que não poderia ter visto minha noiva com outro e reafirmei ter máxima confiança nela.

— O que só merece elogios... — Dou um suspiro.

— Exatamente. E tenho tanta confiança que nem comentei com ela o papo.

— Que papo?

— O papo que tive com o Nidruz. Porém, dias depois, ele voltou.

— Não me diga que...

— Digo sim. Voltou para afirmar que vira novamente a Nancy com o tal sujeito.

— Num banco do jardim do Centro de Convivência?

— Justamente. Num banco do jardim do Centro de Convivência. Então, fiquei uma fera.

— Bateu no Nidruz?

— Não, bater não bati, mas fiquei uma arara. Até que ontem...

— O que foi que houve ontem?

— O Nidruz voltou. Foi ao meu escritório em pleno horário de expediente e me arrastou até o jardim do Convivência.

— Te arrastou pra que?

— Para que eu mesmo visse a Nancy com o Ricardão.

— O Nidruz fez isso? Você não devia ter ido...

— Sim, puxa vida, mas não tinha outro jeito.

— Bom – dou um gole no meu vinho – e, afinal, o Nidruz tinha ou não tinha razão?

— Claro que tinha. E por isso briguei com ele.

— Entendo. Quem estava no banco era uma sósia da Nancy.

— Não, era a Nancy mesmo.

— Com alguém? – Levanto as sobrancelhas.

— Sim, com alguém. Mas você sabe quem?

— Pra te falar a verdade...

— Pois ela estava com o Borges. Você conhece o Borges, não conhece?

— Vagamente...

— Pois o Borges, e isso você sabe, é mais bonito do que o ator George Clooney; mais rico do que Lula e a turma do Petrolão; e mais inteligente do que qualquer Prêmio Nobel...

— Ué, e o que tem isso?

— O que tem — ele termina — é que se a Nancy possui, à sua disposição, um homem maravilhoso que nem o Borges e vai casar, no fim do mês, comigo que sou feio, pobre e burro, o corno é ele, não eu,

Daí, parou de falar. E pediu uma taça para se servir do meu vinho.