Publicado 19 de Julho de 2016 - 19h05

José Eduardo Belmonte construiu uma carreira meio errática. No início, fez filmes mais complexos que poucos viram. Alguns bons, como Se Nada mais der Certo (2008). Quando tentou se popularizar escorregou em bobagens como Billi Pig (2012) ou em produções que alcançaram público, como Alemão (2014), mas sem convencer como cinema. Entre Idas e Vindas (Brasil, 2016), que estreia nesta quinta-feira, começa mal com um título genérico que poderia ser a nova novela das 19h, ou episódio de algum seriado, ou seja, serve mais ou menos para tudo.

No formato comédia-romântica-road-movie, é menos comédia e mais romance. O roteiro tenta ser descolado e consegue em boa parte. Tem tiradas legais aqui e ali, piadas boas (“isso é nome de criança?”, referindo ao personagem Benedito, vivido por João Assunção) e alguma crítica interessante e articulada — caso do carro Lada de Afonso (Fábio Assunção). O texto de Benedito, aliás, é a melhor coisa do filme (“a União Soviética ainda existe?”. Pergunta enquanto tenta convencer o pai a se livrar do carro), assim como ator — que vem a ser filho de Fábio. E o menino é bom. Se irá emplacar como ator, é uma incógnita, mas no filme ele se mostra talentoso e carismático.

No mais, o roteiro reúne coleção de clichês e um desperdício de atrizes cujos personagens não sabem direito a que vieram. São quatro atendentes de telemarketing, Amanda (Ingrid Guimarães), Sandra (Alice Braga), Cillie (Carol Abras) e Krisse (Rosanne Mulholland). Em férias, elas pegam a estrada com um motorhome. Como se imagina, o Lada de Afonso fica pelo caminho e ele e Benedito embarcam no motorhome.

Não se pode exigir muito do gênero comédia romântica. Com gramática própria (como qualquer gênero), tudo está absolutamente posto e resolvido. E não há muito que fazer. Quer dizer, até há. Para isso seria preciso inovar o gênero — o que não seria má ideia —, mas o diretor não deve estar lá muito interessado no assunto. No entanto, os personagens poderiam ter um pouco de consistência. Eles são planos, na verdade, interpretam tipos.

Só para exemplificar: Cillie é a engraçada, Sandra é a mal-humorada, Krisse, a sonsa e Ingrid, a mocinha. Como as personagens não ajudam, as interpretações são anódinas. Não funciona nem quando elas têm chance de mostrar algo — como a briga entre Sandra e Amanda. O máximo que Amanda consegue é parar o veículo e dar um grito na estrada, seguido de um palavrão para, em seguida, deitar no asfalto antes de perdoar a amiga. Sim, não dá para exigir muito, mas isso é tudo que Ingrid Guimarães consegue fazer quando está com muita raiva? Óbvio que não convence ninguém.

Fica claro que o diretor se inspirou nas produções indies do cinema americano, que, na verdade, são tentativas de invenção que flertam o tempo todo com o mainstream. Os independentes investem tudo o que podem e sabem em filmes pequenos que repercutam como grandes e, com alguma frequência, atingem o objetivo. Entre Idas e Vindas busca a invenção do índie de olho no mercado que nem sequer existe no Brasil. Contudo, com toda boa vontade do diretor, o filme não acontece. (João Nunes/Especial para o Correio)