Publicado 19 de Julho de 2016 - 19h05

[CR_TXT_3LINH]João Nunes[/CR_TXT_3LINH]

[CR_TXT_PROCE]ESPECIAL PARA O CORREIO[/CR_TXT_PROCE]

Histórias de reencontros entre pais e filhos separados por anos são onipresentes em programas populares de televisão. Por que uma diretora articulada como Anna Muylaert se interessaria por repetir o dramalhão em que se transformam essas histórias na TV? Em primeiro lugar, Mãe só há Uma (Brasil, 2016), que estreia na quinta-feira, vai além de promover o encontro, pois trata de caso de polícia: a mãe sequestrou o filho na maternidade. O roteiro foi livremente inspirado no Caso Pedrinho, episódio real ocorrido em 1986 em Brasília — o desfecho se deu em 2002 em Goiânia. Depois, Anna desconstrói a história real e isto só se tornou possível nas mãos de quem é ótima roteirista, conhecedora do ofício e cuidadosa ao extremo com a própria criação. E também corajosa, pois quem mudaria uma história tão conhecida e lhe daria um olhar completamente distinto do acontecimento real? Pois a cineasta não temeu ousar e o resultado é surpreendente.

Antes de tudo, Anna toma a história para discutir identidade. Parece óbvio depois, mas encontrar o tema e mergulhar nele em vez da história propriamente se constitui um verdadeiro achado. Afinal, até 17 anos, o protagonista (Naomi Nero) se chama Pierre. E, de um dia para o outro, ele vira Felipe. Naturalmente, o garoto pira e, não por acaso ele se coloca como alguém em busca de identidade, discussão que perpassa a questão de gêneros. Sutil no início, Anna mergulha aos poucos no assunto relegando o tal reencontro e as sequelas do sequestro — estes servem mais como suporte para debater identidade.

E ela vai além na ousadia, pois coloca a mesma atriz, Dani Nefussi, para fazer as duas mães (Glória e Aracy) do protagonista, ou seja, outra ótima ideia com a qual a diretora continua a perseguir o tema a que se propôs — lembrando também a sutileza que daí se depreende se voltarmos ao título do filme. São detalhes que enriquecem de maneira singular um filme que, no final das contas, passa longe do dramalhão.

Afora o debate que suscita, o filme tem outras qualidades a serem destacadas. Como o roteiro enxuto, direto, que avança objetivamente e no qual nada sobra ou falta. E há um jovem ator, Daniel Botelho, que protagoniza uma das melhores sequências, mesmo sendo secundária; porém, complementar.

Ele interpreta Joca, o irmão de Pierre/Felipe e também está em plena crise da adolescência, apaixonado e perdido. Um primor o diálogo que ele mantém com a ex-namorada, além de a cena estar bem filmada e o garoto ótimo na postura, no domínio do texto, na forma de dizê-lo e nas intenções. Parece ator veterano. Coincidente, como se fosse um prêmio ele e Naomi protagonizam o final belíssimo — outro achado. Reside na sutileza da diretora/roteirista a única saída possível para aquela história. Pierre está de mal com a vida, com a antiga mãe e com novos e verdadeiros pais, que são insensíveis ao drama dele. Seu porto seria a irmã (Laís Dias, que não é irmã), mas ele a perdeu. Então, descobre alguém bem próximo. Joca consegue entendê-lo. E a cena final não poderia ser mais terna e mais bonita.