Publicado 10 de Julho de 2016 - 19h05

Artistas de diferentes linguagens se unem hoje para homenagear o maestro Antônio Carlos Gomes no dia de seu aniversário. Hoje comemora-se os 180 anos de nascimento de Carlos Gomes, o campineiro mestiço que escreveu seu nome na história da música operística mundial.

A data serve de mote para uma reflexão sobre um trecho de uma das mais conhecidas peças do compositor: “Tão longe de mim distante, onde irá teu pensamento?”.

Essa é a proposta do evento Tonico 180, que prevê uma série de ações na Praça Bento Quirino, no Centro de Campinas, onde se encontra o monumento-túmulo do maestro, e marca o início das gravações do longa-metragem Bravo, sobre a vida do artista.

O filme, da TAO Produções Artísticas, tem direção de Teresa Aguiar e Ariane Porto, que também assina o roteiro junto com Ricardo Grynszpan, e tem no elenco nomes como Lima Duarte, Laura Cardoso e Luiz Carlos Vasconcelos, que estarão presentes no evento.

Além deles, a pianista Sonia Rubinsky, campineira radicada em Paris, que veio à cidade para o concerto O Selvagem da Ópera, do projeto Viagens entre Mundos, do Circuito BNDES Musica Brasilis, vai fazer uma participação especial, tocando um solo para piano do compositor. O ator-mirim Matheus Braga, a soprano Ana Beatriz Machado e o escritor Jorge Alves de Lima são outros nomes confirmados no encontro, que terá ainda leitura de trechos do roteiro com atores campineiros, grupo de dança e participação da Associação Brasileira Carlos Gomes de Artístas Líricos (Abal), Academia Campinense de Letras (ACL), Academia Campineira de Letras e Artes (ACLA), Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) e de membros da comunidade acadêmica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Vamos ocupar a praça para homenagear o artista que foi o primeiro herói nacional, que tornou o nome do Brasil e de Campinas conhecidos no mundo. Comemoramos a vida dele e damos início a gravação do longa”, afirma Ariane Porto. “A proposta é tirar Carlos Gomes do lugar em que foi colocado, acessível apenas ao mundo erudito, e trazê-lo para o universo popular, mostrar o que ele tem de brasileiro, de povo. Não só a obra, mas a vida do maestro, é inspiradora”, reforça a diretora.

O longa venceu, em 2013, o prêmio de Roteiro Profissional promovido pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) e governo Italiano. Conhecido como Nhô Tonico, Carlos Gomes (1836-1896) fez carreira de destaque na Europa, sendo o primeiro brasileiro a ter suas obras apresentadas no Teatro alla Scala de Milão e tornando-se o mais importante compositor de ópera do Brasil de todos os tempos.

“A necessidade de apresentar essa trajetória e suas relações com a história do Brasil se faz presente para que a sociedade brasileira conheça e valorize adequadamente o grande maestro e compositor que foi Carlos Gomes, que enfrentou as dificuldades de sua origem humilde — filho do músico Manuel José Gomes (Maneco) e Fabiana Jaguari Gomes, a quem ele perdeu tragicamente ainda criança”, ressalta Teresa Aguiar.

Segundo Ariane, “a grandiosidade de sua obra artística é fruto de um talento nato e incomparável, aliado a uma grande dedicação e trabalho árduo, que se sobrepôs às dificuldades de uma vida marcada pela luta”. Para a diretora, a escassez de material e de conhecimento do grande público sobre a vida e obra do maestro faz com que esse projeto se torne essencial. “Infelizmente, o Brasil não tem o hábito de cultuar seus heróis. E Campinas não foge à essa triste regra. Parece que temos vergonha de sermos quem somos, de nossa origem, de nossas lutas, até mesmo de nossas vitórias.”

Laura Cardoso também considera “importantíssimo contar a história desse gênio da música”. “Além disso, é muito bom estar num projeto com a Teresa e a Ariane. As conheço há tempos e admiro o trabalho delas, é sério, honesto e baseado em coisas brasileiras”, afirma Laura, que no final de 2014 participou de outra produção da dupla de diretoras, o longa O Crime da Cabra, que ainda não foi lançado no mercado. Questionada sobre o que é ser artista no Brasil, Laura respondeu, depois de um longo suspiro. “É muito difícil, o artista sofre muito, não tem o devido reconhecimento, não é bem remunerado. Tem que gostar muito para encarar. Amo representar, erro às vezes, acerto outras, mas não é fácil ser artista no Brasil.”

Sonia Rubinsky concorda que o compositor é “pouquíssimo lembrado” no País. “Carlos Gomes e Villa-Lobos levaram o nome do Brasil para o mundo. E ele sofreu muito, foi perseguido pela República por ter recebido apoio do imperador. É importante contar essa história, recuperar a memória do compositor, que na música foi de fato o primeiro herói nacional”, avalia a pianista. “O Brasil não tem uma política cultural, não divulga a produção artística nacional. O filme sobre Villa-Lobos resgatou a memória dele para o Brasil. Espero que este faça o mesmo com Carlos Gomes”, reforça.

“Várias questões me animaram neste projeto. Primeiro por falar desse artista tão importante e não devidamente conhecido pelos brasileiros. Também por essa coisa louca de ‘vamos fazer’, mesmo sem apoio institucional. E também por ter no elenco artistas como Lima Duarte e Laura Cardoso, tão importantes na dramaturgia brasileira”, diz Luiz Carlos Vasconcellos. Ele dará vida a Carlos Gomes adulto e Lima Duarte interpreta o compositor no fim da vida. “Agregar a questão do artista em si também é importante, porque ajuda a refletir sobre sua visão do mundo e o tanto que ele colabora para elevar a condição humana.”

Tonico 180 será um encontro de pessoas e grupos para refletir sobre a arte e o papel dos artistas na contemporaneidade. O evento terminará às 17h, com a lavagem simbólica do Monumento-Túmulo de Carlos Gomes.