Publicado 08 de Julho de 2016 - 19h05

Abrir-se para a vida é, realmente, expor-se aos bafejos dela mesma. Somos, então, acarinhados e açoitados, amados e judiados, conhecendo o paradoxal mistério de rimas ricas: canduras e torturas; doçuras e amarguras. Expostos, então, a brisas e intempéries podemos conhecer pedacinhos de céus e de infernos. Entre uns e outros, a escolha é de cada um.

Sei devê-los a meus pais, os estímulo e incentivo para buscar a fantástica aventura de viver. Deram-me uma lição que transmiti, também, a meus filhos: “O lar não é o lugar onde se fica, mas para o qual se volta.” Ir-se, pois, para o mundo, confiante, porém, no porto seguro para o retorno. Essa certeza de um ninho à espera — como Penélope aguardando Ulisses, tecendo a lã — é o alimento da coragem, da fome de conhecer, da resposta ao convite diário à aventura. Sim — como nos ensinou Guimarães Rosa — “viver é muito perigoso”. Mas como é bom!

Enfim: a sabedoria de viver está — acredito nisso — em ser um aprendiz. E — como o fez Gonzaguinha — “e cantar e cantar e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz.” E quanto a aprender, quanto a descobrir! Poetas sabem disso mais do que filósofos e cientistas. Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena quando (ou se) a alma não é pequena.” O aprendiz espanta-se com tudo. Com cada descoberta, com cada novo conhecimento. E, então, entende que, mais do que saber, ele sentiu. Sentir é aprender no coração.

Desde a infância, esse mistério fascinou-me. E vi-me transformado em pescador de peixinhos do conhecimento, do aprendizado. Ou um caçador de pérolas para mim inteiramente desconhecidas. Não os devorei, preferindo saboreá-los aos bocadinhos, a sorvê-los em conta-gotas. E a garimpar. Assim, em cada garimpagem, uma poeirazinha de preciosidades me enriquecia. Obviamente, encontrei pedregulhos, ferrugens, cacos de vidro. Rejeitei-os, sem desanimar na busca, na colheita, na pesca, no garimpo. Assim, mal saído da adolescência, encontrei Jung. E, pelos inquietantes mas mansos delírios dele, fui levado a mundos irresistíveis. A mil mundos, tantos e tantos que sei não haver fim.

Ser aprendiz é mergulhar no mistério da magia, a emocionante brincadeira entre o real e o idealístico. Aquilo que é pode não ser. Ou, então, por que não o transformar naquilo que desejo seja? Uma fruta, na bandeja, lá parece estar para que eu a morda e saboreie. Mas o pintor pode transformá-la numa obra de arte. O sábio sabe fazer limonada do limão. E, nessa alquimia permanente, Jung tomou-me pelas mãos e me apresentou a outros universos, os de — entre tantos — Eliade, Campbell, às religiões de todos os povos, aos upanishades, aos celtas, a pagãos, a deuses múltiplos e aos que acreditam num só. Eis que, aprendiz, entendi serem, o mundo e a vida, mais amplos do que minha imaginação. E mais simples, mesmo em sua aparente complexidade.

Nessa magia, há símbolos, signos, mensagens que resumem todo o princípio de nossa história humana. Pois ela apenas começou. É o passado que governa, com a força de suas raízes. Sem elas, presente e futuro nada são além de paisagens, simples perspectivas. Nossos ancestrais — menos preocupados com a ciência e mais com a magia das coisas — reverenciaram mistérios da natureza. Souberam ser parte dela, buscando viver a seu ritmo.

Ora, uma árvore não é apenas um árvore, mas, também, um símbolo fundamental: o da vida. E, também, da morte. Uma floresta pode simbolizar toda a humanidade. E cada árvore, uma pessoa humana. Em suas mudanças, a cada tempo da vida; em suas transformações, em suas próprias renovações. A cada estação, a árvore renova-se sem, no entanto, perder a sua natureza. Galhos secam e caem, morrem; outros nascem, frutos surgem, flores enfeitam-na. A árvore da última primavera não será a mesma na próxima. E, no entanto, suas raízes conduzem-na para o alto, onde, certamente, lhe reside a espiritualidade.

Se cada um de nós — na floresta imensa a que fomos lançados — souber podar-se a si mesmo, mudando-se sem perder a identidade, o bosque poderá organizar-se sabiamente. O homem - ao contrário do que deseja — não é o rei da criação. Muito menos, dono do mundo. Ele é parte do concerto, do jardim. Podar-se significa esmerilhar-se, polir-se, construir-se e reconstruir-se. Quem não entender será um estranho na harmonia do universo. E sofrerá.

Em Brasília, lamentavelmente, a terra é pobre. Árvores são quase anãs. Talvez, por isso, sejam, lá, tão pequeninos os políticos.