Publicado 24 de Julho de 2016 - 5h30

Nem todos os ex-trabalhadores das empresas Basf e Shell de Paulínia que foram expostos a contaminação química por quase 30 anos foram indenizados. Aproximadamente mil funcionários receberam as indenizações em 2013, mas um grande grupo de ex-trabalhadores que não mora mais em Campinas e região alega que não foi informado pela Associação dos Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas (Atesq) do Sindicato dos Químicos. Por isso, perderam o prazo e não foram contemplados com o pagamento das indenizações individuais, que teve valor médio de R$ 180 mil por trabalhador. O valor dependia do tempo a que o trabalhador foi exposto e de suas condições de saúde.

“No primeiro processo, em 2013, quando foram chamar o pessoal para receber as indenizações, chamaram de maneira incorreta. Só publicaram em jornais e televisão regionais para entrar em contato e fazer o cadastro para poder receber. Então ficaram quase mil pessoas sem receber, que estavam trabalhando em outras cidades”, afirmou o engenheiro Eurípedes Santos Ferreira, de 69 anos. Ele trabalhou na Shell entre 1986 a 1990 como chefe de manutenção e atualmente mora em Franca.

Segundo ele, o grupo que ficou para trás pressionou o Sindicato dos Químicos e foi aberta uma nova ação. Porém, o pedido ainda não chegou à Justiça. “Depois de muita briga eles recomeçaram o processo em 2014, mas até agora não deram entrada. Assinamos uma procuração para o advogado entrar com o recurso, mas eles falam que ainda falta cadastrar ex-funcionários”, completou Ferreira. “Eu particularmente estou numa situação melhor, me aposentei bem, exerço minha atividade como autônomo. Mas tem gente que está doente e que até morreu.”

Ricardo Luiz Mendes Gonçalves, diretor da Associação dos Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas (Atesq), do Sindicato dos Químicos, contesta a informação. Segundo ele, o acordo firmado na Justiça em 2013 beneficiou 1.122 ex-funcionários e familiares que se cadastraram no Ministério Público. Gonçalves diz que muitos ex-trabalhadores não foram localizados e não manifestaram interesse.

“Quando o processo foi julgado, em 2010, a Justiça deu um prazo de 90 dias para os trabalhadores se habilitarem no site do MP, não foi o sindicato que fez o cadastro. Muitos chegaram depois da ação e outros entraram com advogado particular, nem passou por nós”, explicou. “Em hipótese alguma foi erro do sindicato.”

Segundo o diretor da Atesq, muitos ex-funcionários não foram localizados porque estavam com o endereço desatualizado, e outros não tiveram interesse de entrar com a ação, mas depois mudaram de ideia. “Dizem que o sindicato não procurou, mas muitos não atualizaram o endereço, saíram da região e alegaram que não sabiam. Muita gente não quis se habilitar porque não acreditava na ação.”

O caso

As empresas foram condenadas pela contaminação dos ex-trabalhadores expostos por 28 anos — entre 1974 e 2002 — a produtos de alta toxicidade, que eram manipulados na fábrica de pesticidas que funcionava em Paulínia. A ação coletiva, de autoria do Ministério Público do Trabalho, começou em 2007. Ao todo, o acordo chegou a R$ 400 milhões.