Publicado 24 de Julho de 2016 - 5h30

A reposição dos médicos cubanos no programa Mais Médicos traz incertezas e preocupações à Região Metropolitana de Campinas (RMC), onde há cerca de 150 profissionais. Eles chegaram entre 2013 e 2014 para um contrato de três anos, que começa a se encerrar agora. O governo brasileiro pediu a renovação por mais três anos, mas, em reunião com o governo cubano e com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) no dia 15 de julho, ficou acordado que o primeiro grupo de médicos a chegar deve permanecer no País até novembro e, na sequência, eles serão substituídos, garantindo o atendimento à população durante a Olimpíada e no período eleitoral. Cuba também quer renegociar o valor das bolsas. O Ministério da Saúde informou que as reivindicações financeiras estão em análise.

Atualmente, o Mais Médicos conta com 18,2 mil profissionais em todo o Brasil e 62% deles, o correspondente a 11,4 mil, são cubanos — 1,5 mil são formados no Exterior e os demais são brasileiros. Eles atuam na assistência básica e recebem uma bolsa de R$ 10 mil. No caso dos cubanos, o valor é repassado ao governo, que paga aos profissionais cerca de R$ 3 mil. Na reunião com o governo brasileiro, Cuba solicitou o reajuste das bolsas para compensar a inflação e a desvalorização da moeda local. A preocupação é que os 11,4 mil médicos devem deixar o Brasil até meados do ano que vem, e precisarão ser substituídos em um período de seis meses.

Algumas prefeituras da RMC, a população e os próprios profissionais demonstram preocupação com a situação. Em Pedreira são apenas três médicos, mas a Secretaria de Saúde já está apreensiva e teme prejuízos no atendimento, “pelo desfalque das equipes e pela impossibilidade de substituição”. Em Nova Odessa, são nove cubanos. A diretora de Saúde Básica, Glaucia Blumer Paulon, disse que ainda não há um posicionamento oficial sobre a renovação do convênio e que o Município está em contato constante com a coordenação regional do projeto, pois tem interesse na renovação. “Estes profissionais são muito bem-vindos, pois, além de atenderem bem os nossos pacientes nas unidades básicas, têm importante contribuição para ajudar a desafogar o atendimento na rede pública de saúde, evitando que estes pacientes tenham que se dirigir ao pronto-socorro”, afirmou.

Em Campinas são 72 médicos cubanos de um total de 79 profissionais que fazem parte do programa. De acordo com a Secretaria de Saúde, eles atuam nos cinco distritos de Saúde: 12 na região Leste, 12 na região Noroeste, 18 na Norte, 15 na Sudoeste e 22 na região Sul. De acordo com a assessoria de imprensa, a Secretaria de Saúde não recebeu nenhuma orientação oficial do Ministério da Saúde e seguirá as indicações do governo federal.

A Prefeitura de Itatiba, que conta com seis profissionais, informou que aguarda decisão do governo federal sobre a continuidade dos médicos e que a população atendida por esses profissionais será a mais afetada caso haja a saída, “principalmente em relação ao vínculo já criado por eles nas unidades em que atuam”. Até o momento, dois médicos cubanos demonstraram interesse em permanecer em Itatiba.

A reportagem conversou com um médico cubano que não quis se identificar, já que os profissionais receberam orientação expressa por e-mail de que era proibido falar com brasileiros sobre os prazos de saída do País. Ele reclamou da falta de informação. “Só falaram, na pouca informação que nos forneceram, que por uma questão de estratégia política não iam deixar os médicos renovarem por mais três anos. O Brasil estava pedindo a renovação porque os médicos que já estão aqui conhecem o sistema, o idioma, os pacientes. O governo cubano só respondeu que por questão de estratégia política ia trocar todos os médicos.”

De acordo com o profissional, o prazo de saída do grupo chegou a ser antecipado e alguns até foram desligados. “Há uma total desinformação, mas acho que a responsabilidade maior de nos informar é do meu País”, afirmou.

O médico chegou a Campinas em novembro de 2013 e disse que voltará para Cuba em novembro com o desejo de continuar desenvolvendo o trabalho iniciado na cidade. “Gostaria de ficar, de ver os frutos do trabalho iniciado aqui.” Ele contou que os primeiros dois anos foram de adaptação e aprendizado. “A gente chegou numa unidade com uma população grande e poucos médicos, onde o agendamento de uma consulta demorava seis meses. Quando chegamos, o tempo de espera ficou menor. Conhecemos a população e ela sentiu que estava sendo mais cuidada para enfrentar qualquer problema de saúde. E agora a saída é complicada.”

Outro lado

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que o Mais Médicos está assegurado, assim como a reposição dos profissionais. No caso dos médicos cubanos, a substituição é feita diretamente com o governo de Cuba. Na última semana, desembarcaram no país 50 médicos cubanos e a previsão é que mais 500 cheguem nesta semana e outros voos nos próximos dias. “A manutenção está assegurada. É um compromisso do ministro da Saúde, Ricardo Barros, fortalecer a participação dos brasileiros no Mais Médicos e, enquanto houver necessidade e vagas a serem preenchidas, manter o convênio com a OPAS para o provimento de médicos no País. Dessa forma, o Ministério reforça que não haverá desassistência nos municípios que participam da iniciativa”, diz nota.