Publicado 23 de Julho de 2016 - 5h30

Calado, tranquilo e acima de qualquer suspeita. Assim definem os moradores de Amparo que tiveram contato com Zaid Mohammad Abdul Rashmon Duarte, nascido Marcos Márcio Duarte, de 42 anos, preso pela Polícia Federal (PF) anteontem de manhã, em Campinas, suspeito de envolvimento com o Estado Islâmico (EI).

Duarte, que é natural de São Luís do Maranhão, morava em Amparo, mas trabalhava como entregador em uma empresa do ramo de alimentação, no Jardim Ipaussurama, em Campinas, onde foi preso. “Era um cara normal. A notícia de que ele tinha envolvimento com o terrorismo nos pegou de surpresa. A gente sabe que ele não ia fazer nada para nós”, disse o comerciante Rodrigo Ferreira, de 29 anos, dono do Bar do Ponto, no centro da cidade e onde Zaid frequentava todas as manhãs de sexta-feira para tomar café com pão na chapa e ler o jornal. “Ele sempre sentava no mesmo local, na mesa que fica de frente para a porta. Sentava só. Ficava uns 10 minutos e saía”, contou. “Ele gostava de praticar paintball. Treinava com os amigos em chácaras da cidade”, acrescentou.

Apesar de a Operação Hashtag ter ocorrido logo no início da manhã em pelo menos dois bairros de Amparo, cidade com 70.280 habitantes — segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2015 —, os amparenses só tomaram conhecimento de que um de seus moradores é suspeito de terrorismo no final da tarde. “A gente viu as viaturas passando pela rua e indo para o Parque das Aves, mas nem sabíamos do que se tratava. Imaginávamos que era tráfico, nunca passava pela cabeça se tratar de terrorista”, disse um morador que não quis ser identificado.

Nas rodas de conversas pela cidade, o assunto do dia era a prisão do rapaz calado. Alguns não deram muita importância, mas a maior parte dos moradores estava assustada. “Estou em choque. A gente imagina essa coisa de terrorista lá longe, do outro lado do mundo, não aqui pertinho”, disse a auxiliar de produção Goretti Ribeiro, de 51 anos.

O trabalho da PF na cidade começou por volta das 6h. De acordo com moradores, os policiais se reuniram em uma padaria na região central logo cedo para definir a estratégia de trabalho.

Um dos primeiros bairros a ser visitado foi o Chácara Zanarella. Segundo moradores, nos últimos tempos, Duarte era visto constantemente na casa de dois amigos na Chácara Zanarella.

A dona de casa Valda Ângelo da Silva, de 64 anos, mora ao lado do imóvel revistado pela PF. “Foi um susto grande. Os policiais gritavam para abrirem a porta. Achei que fosse na minha casa”, contou a idosa que conhecia de vista o suspeito. “Nunca imaginei que o rapaz estivesse envolvido com terrorismo, aliás nem sei o que é isso”, disse.

Na casa que o rapaz frequentava, colegas de Duarte não quiseram falar com a reportagem. Ao perceberem a presença dos repórteres, fecharam as janelas e falaram que não conheciam ninguém. A informação de alguns anônimos é a de que na casa há sempre algum estrangeiro. Moradores do bairro São Dimas afirmam que Duarte era visto no local sempre e que ele chegou a morar lá por duas vezes, sendo a primeira há cerca de cinco anos. Ele sempre estava só e era visto com uma bolsa preta atravessada no ombro.

Dona de uma padaria no bairro, Ângela Nardini, de 50 anos, disse que Duarte costumava passar no local sempre e comprar pães. “Ele era muito fechado e de pouca conversa. Um dia puxei assunto e ele só respondeu o que eu perguntei. Ele falava enrolado, não dava para entender muito”, contou.

Segundo os moradores, o bairro é conhecido por abrigar muitos árabes, já que boa parte deles trabalha para a empresa JBS (antiga Pena Branca). “Agora estamos com medo. A gente não sabe se todos são iguais ao rapaz preso”, disse uma balconista que não quis ser identificada.

O aposentado Pedro Cristiano de Souza, de 77 anos, alugou uma casa para Duarte há pelo menos quatro anos. Na época ele ficou no imóvel cerca de um ano. Nesse período morou sozinho. “Nunca me deu trabalho. Pagava em dia. Era sempre calado”, contou.

Nascido no dia 8 de maio de 1974, Duarte se converteu ao islamismo há 13 anos. Nascido e criado na cidade Ilha de São Luís do Maranhão, ele era idealizador, fundador, vice-presidente e Emir da Sociedade Islâmica do Maranhão.

Grupo está na penitenciária de Campo Grande

Os dez presos na Operação Hashtag, suspeitos de preparar atos terroristas, foram transferidos na madrugada de ontem para a Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. Eles foram presos em dez estados diferentes. Eles deverão responder pelos crimes de promoção de organização terrorista e realização de atos preparatórios de terrorismo, ambos previstos na Lei 13.260/2016, conhecida como Lei Antiterrorismo.