Publicado 22 de Julho de 2016 - 5h30

Cerca de 20 moradores da rua invadiram há cerca de seis meses um canteiro com gramado e uma mangueira que margeia a Avenida Lix da Cunha e a Avenida Governador Pedro de Toledo, num acesso ao bairro Bonfim, e montaram acampamento. O grupo já se sente tão à vontade que colocou bem no meio do terreno um manequim feminino com chapéu, cachecol, roupa e um ursinho de pelúcia de tamanho grande também travestido. Os invasores são 15 homens e 5 mulheres. Não há crianças no local.

Os líderes do grupo dizem que resolveram colocar os bonecos não para espantar intrusos ou curiosos, mas para mostrar para as pessoas que eles são “do bem” e que estão ali por falta de condições de moradia e emprego. Islei de Jesus, de 31 anos, afirmou que eles montaram barracas de lona, madeira, plástico e cobertores velhos e que as condições de moradia são precárias porque não há água, luz e nem um local adequado para eles fazerem suas necessidades fisiológicas. Para cozinhar, improvisaram um pequena chapa velha apoiada por tijolos que serve como fogão, que acendem com pedaços de madeira recolhidos no decorrer do dia.

Islei contou que para conseguir alimentos eles juntam latinhas para vender e pedem também donativos em restaurantes e bares da vizinhança. À noite, quando as temperaturas em Campinas têm caído bastante, membros de um grupo que fazem um trabalho voluntário levam um sopão para eles. O morador explica que está nas ruas há dez anos e que veio da cidade de Sonora (MS).

“Tive um problema sério lá, fui ameaçado e tive que vir para cá. Como não encontrei serviço no corte da cana aqui, me envolvi com a bebida e vim para a rua.” Contato com familiares? Nunca mais teve.

Antônio Fábio de Jesus, também de 31 anos, é outro que tem uma história parecida com a de seu colega Islei. Disse que foi parar nas ruas porque se desentendeu com familiares em Campinas e se envolveu com bebidas alcoólicas. Assim, ele revela ter se desestruturado e abandonado a profissão de jardineiro e servente, e relata momentos difíceis que o grupo passa no local. “Enfrentamos frio, chuva, fome. Nem lugar para fazermos nossas necessidades temos. A Prefeitura nos dá pouca assistência, às vezes vem uma assistente social aqui perguntar se estamos bem e depois vai embora. Nem cesta básica e atendimento médico temos”, reclama.

Para o almoço de ontem, o cardápio era uma feijoada conseguida num restaurante das proximidades que no período da manhã estava seca numa panela grande colocada no fogão improvisado. “Vamos acender a lenha para esquentá-la. Ela está boa, é de ontem, senão não iríamos comer”, reforça Antônio Jesus, que demonstrava estar meio embriagado e, às vezes, tinha sua atenção chamada por outros três amigos do grupo para informar o repórter.

Em meio ao bate-papo, cerca de cinco moradores do local dormiam nas barracas e nas redes. Por alguns momentos, discutiam entre si mas logo voltavam a ficar bem.

Em paz

Moradores da vizinhança dizem que convivem pacificamente com o grupo e que praticamente não há problemas. Jair Celino, de 48 anos, que trabalha na limpeza de rua do local para uma empresa terceirizada, disse que os moradores cuidam do local e que não incomodam ninguém.

“Eles são mais educados do que muita gente por aí. Para falar a verdade, eles recolhem o lixo do local e até varrem a sujeira”, disse.

Prefeitura diz que acompanha movimentação

A assessoria da Secretaria Municipal da Cidadania, Assistência e Inclusão Social disse que presta assistência aos sem-teto que vivem no local e que faz abordagens constantes, convidando-os para integrarem programas de emprego e geração de renda da Administração. A pasta diz ainda que nesse período de baixas temperaturas eles são convidados a pernoitarem nos abrigos municipais mas que eles não aceitam por não concordarem com as regras de convivência e horários do estabelecimento. Por fim, a secretaria relatou ainda que todos têm casa em Campinas mas que se negam a voltar para suas famílias. (LS/AAN)