Publicado 22 de Julho de 2016 - 5h30

A Polícia Federal (PF) desarticulou ontem de manhã um grupo envolvido na promoção do Estado Islâmico (EI) e na preparação de atentados terroristas e outras ações criminosas. Intitulada Hashtag, a operação policial foi a primeira após a publicação da Lei Antiterrorismo brasileira que entrou em vigor em março deste ano. Dentre os dez presos na ação, quatro foram detidos no Estado de São Paulo, sendo um em Campinas segundo informações levantadas pela reportagem e que não foram divulgadas oficialmente pela PF. Na região, a polícia também teria cumprido mandado de busca e apreensão em Amparo. A investigação corre sob sigilo.

De acordo com a Polícia Federal, cerca de 130 policiais cumpriram mandados judiciais expedidos pela 14 Vara Federal de Curitiba nos estados do Amazonas, Ceará, Paraíba, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Além das dez prisões temporárias, houve duas conduções coercitivas e 19 buscas e apreensões. Os investigadores acompanhavam desde abril as redes sociais através da Divisão Antiterrorismo da Polícia Federal (DAT), já que participantes de um grupo virtual denominado Defensores da Sharia planejavam adquirir armamentos para cometer crimes no Brasil e até mesmo no Exterior.

Eles usavam aplicativos como WhatsApp e Telegram, por onde manifestavam apoio aos atos terroristas praticados em outros países e, por conta dos Jogos Olímpicos, planejavam ataques no Brasil. Até mesmo uma organização não governamental com atuação na área humanitária e educacional é investigada por fazer apologia ao Estado Islâmico em cursos e palestras.

Ao fim do dia, o juiz Marcos Josegrei da Silva, titular da 14 Vara Federal de Curitiba, afirmou que os presos têm entre 20 e 40 anos, sendo que nenhum tem origem árabe apesar do uso de codinomes árabes em redes sociais. “Não são nomes de batismo. Adotaram para se identificar melhor com o grupo terrorista”, afirmou.

Segundo a PF, os investigados responderão individualmente conforme sua participação nos crimes de promoção de organização terrorista e realização de atos preparatórios de terrorismo, ambos previstos na Lei 13.260/2016. Quem for condenado pelo primeiro crime pode cumprir de cinco a oito anos de prisão, além de pagar multa. Já pelo segundo crime o condenado poderá pegar de três a 15 anos de prisão.

O ministro da Justiça e Cidadania, Alexandre de Moraes, afirmou em coletiva que agirá “da maneira mais dura possível”. “Não vamos esperar um milímetro para que qualquer ato preparatório se desenvolva. Por mais insignificante que possa parecer, terá uma reação rápida, una e certeira do poder público”, disse ele, que considera a Lei Antiterrorismo fundamental.

“Só é possível você executar uma prisão, pedir uma prisão temporária por qualquer crime, se já houve pelo menos atos executórios. A lei (Antiterror) permite atos preparatórios. Você comprar uma arma para praticar um crime é um ato preparatório. Você pode ser preso por terrorismo se você tentar ou adquirir uma arma com a finalidade de praticar terrorismo.”

Segundo o governo Federal, todos os presos são homens, sendo que apenas dois deles haviam mantido contato pessoalmente. Os suspeitos teriam realizado o batismo no Estado Islâmico, repetindo palavras de juramento ao grupo extremista. Para Moraes, o fato de um dos integrantes pretender ir ao Paraguai para adquirir um fuzil demonstra amadorismo e despreparo. “Uma célula organizada não iria procurar comprar uma arma pela internet. Por isso, eu reitero, a questão da segurança pública gera muito mais preocupação do que o terrorismo.”

O processo

A Justiça Federal do Paraná esclareceu que a Operação Hashtag, deflagrada pela Polícia Federal, investiga a possível participação de brasileiros em organização criminosa de alcance internacional, atuando como uma célula do Estado Islâmico.

Segundo a 14 Vara Federal de Curitiba, foram expedidos 12 mandados de prisão temporária por 30 dias podendo ser prorrogados por mais 30, dois de condução coercitiva e 20 de busca e apreensão, tendo como base informações obtidas a partir das quebras de sigilo de dados e telefônicos, dentre outras formas, as quais revelaram indícios de que os investigados “preconizam a intolerância racial, de gênero e religiosa, bem como o uso de armas e táticas de guerrilha para alcançar seus objetivos”.

Esquema de segurança será mantido

Mesmo com a prisão de dez brasileiros suspeitos de planejar ações terroristas no País e de ligação com o grupo extremista muçulmano Estado Islâmico (EI), o planejamento da segurança para os Jogos Olímpicos Rio 2016 não será alterado, segundo o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que participou de uma reunião do Comitê Executivo de Segurança Integrada Regional – Cesira/RJ, que já estava marcada antes da Operação Hashtag da Polícia Federal.

Segundo Beltrame, as forças de segurança do estado não participaram da operação nacional e não têm informações a respeito. “A reunião do Cesir de hoje (ontem) já estava marcada, e mesmo com os integrantes de inteligência de âmbito estadual e federal que estão presentes na reunião, isso não trouxe e não muda de maneira nenhuma o quadro. Mas ainda estamos recebendo as informações da Polícia Federal”.

Beltrame destacou que ações da inteligência não são comentadas, mas que seria “leviandade” afirmar que não há preocupação nenhuma com terrorismo. Ele lembrou que a segurança integrada tem um centro de inteligência em Brasília, onde estão atuando 50 policiais de outros países em conjunto com a Polícia Federal e a Abin, e que, até o momento, não há indícios de nenhuma ação terrorista no País. (Agência Brasil)

Líder do grupo trabalhava em supermercado

O grupo de brasileiros alvo da Operação Hashtag da Polícia Federal, que prendeu 10 pessoas sob suspeita de tramar ataques terroristas durante a Olimpíada, inclui 14 nomes — alguns deles adotaram nomes árabes ou falsos para se comunicar nas redes sociais: Alisson Luan de Oliveira, Antonio Andrade dos Santos Junior (Antonio Ahmed Andrade), Daniel Freitas Baltazar (Caio Pereira), Hortencio Yoshitake (Teo Yoshi), Israel Pedra Mesquita, Leandro França de Oliveira, Leonid El Kadre de Melo (Abu Khalled), Levi Ribeiro Fernandes de Jesus (Muhammad Ali Huraia), Marco Mario Duarte (Zaid Duarte), Matheus Barbosa e Silva (Ismail Abdul-Jabbar Al-Brazili), Mohamad Mounir Zakaria (Zakaria Mounir), Oziris Moris Lundi dos Santos Azevedo (Ali Lundi), Valdir Pereira da Rocha (Valdir Mahmoud) e Vitor Barbosa Magalhães (Vitor Abdullah). Levi Ribeiro Fernandes de Jesus, de 21 anos, apontado como chefe do grupo, é natural de Guarulhos e morava em Colombo há dois anos. Ele trabalha em uma rede de supermercados de Curitiba e não tinha passagens pela polícia.

Mohamad Mounir Zakaria é brasileiro e dono de cinco empresas de confecção na região do Brás, na Capital. Ele também trabalhou na Rua Oriente, um dos principais pontos de venda do Brás, e é o 2 diretor de patrimônio da Liga da Juventude Islâmica Beneficente do Brasil, cuja mesquita fica no Pari, bairro próximo do Brás.

O sul-matogrossense Leonid El Kadri é mecânico em uma agropecuária em Campos de Júlio (MT), cidade onde vive. Ele já cumpriu pena de 18 anos e oito meses de prisão por homicídio e roubo qualificados. Durante o período em que esteve preso em Araguaína (TO). Atualmente divorciado, ele estudou em uma escola evangélica, participou de um grupo escoteiro no Tocantins entre 1989 e 2000 e cursa engenharia mecânica na Faculdade Anhanguera.

Zaid Mohammad Abdul-Rahman Duarte nasceu Marcos Mário Duarte em maio de 1974 na cidade maranhense de Ilha de São Luis do Maranhão. Convertido ao islamismo há 13 anos, ele se declara idealizador, fundador, vice-presidente e Emir da Sociedade Islâmica do Maranhão.

Ele assina um blog chamado Islam Maranhão, cuja imagem principal diz, em inglês: “você está entrando em uma zona controlada pela Sharia. Regras islâmicas aplicadas”. A Sharia é o conjunto de leis que rege o islamismo. “Eu não sou o primeiro nem o único nem o último muçulmano vivendo num país ocidental vítima de todo tipo de má sorte imposta pela propaganda guerreirista que a mídia sensacionalista pró-guerra sangrenta americana vem travando contra a religião de Allah”, escreveu Zaid Duarte em uma postagem em novembro de 2015. (Das Agências)