Publicado 22 de Julho de 2016 - 5h30

O fenômeno do êxodo rural ocasionou várias consequências, todas danosas. Afugentou as famílias das verdadeiras autarquias chamadas "sítios", onde a autossuficiência garantia vida simples, porém digna, aos seus moradores. Inflou as cidades, onde sobreviver é mais difícil e menos saudável. Expôs crianças e idosos à inclemente poluição atmosférica, do solo, da água e à crescente poluição moral.

Por isso é saudável o movimento de estímulo do contato do alunado com a natureza. Não são apenas as escolas particulares que percebem o benefício da aproximação da criança com aquilo que é natural. Vegetação, fauna, terra. Tudo o que a "civilização" fez desaparecer do horizonte de quem nasce no asfalto e pensa que galinha é um produto de supermercado.

A rede pública estadual tem experiências muito exitosas em relação às hortas escolares. Há uma lei de iniciativa do Deputado Aldo Demarchi a prestigiar a iniciativa. Não se investiu com a intensidade necessária, em virtude da crise hídrica. Mas os benefícios, em cotejo com as desvantagens, superam qualquer cálculo.

Mesmo sem a regulamentação da lei, muitas escolas cuidam de suas hortas. As crianças aprendem a trabalhar em conjunto. Cultivam a paciência, porque a pressa é um signo contemporâneo. Tudo tem de ser para "já". E uma planta é algo que tem um ciclo relativamente lento. Há necessidade de cuidar da terra. Depois semear. Aguardar a germinação. Acompanhar o desenvolvimento. Extrair as ervas daninhas. Impedir que formigas e outros insetos se apoderem do produto do trabalho de todos.

Afinal, colher. E fornecer com a alimentação escolar, num aprendizado em relação a verduras, legumes e frutas que não seriam experimentadas pela criança, por não fazerem parte dos hábitos alimentares de suas casas.

Tudo isso tem reflexo pedagógico importante. Todas as disciplinas ganham incremento. A matemática, pois é necessário delimitar o terreno e trabalhar com a estatística. A biologia, a explicar como é que se verifica a germinação, o crescimento, os estágios até à colheita. O português, pois é necessário identificar as espécies por seus nomes comuns e pela denominação científica. Os demais idiomas, para que o aluno aprenda como é que se chama em outra língua aquilo que ele só conhece em português.

Mais importante ainda, as crianças aprendem a trabalhar em equipe. Desenvolvem a sensibilidade, pois têm noção de que tudo possui vida e que essa cadeia existencial é relevante para a preservação de todas as espécies. Inclusive a humana.

É preciso que todos se empenhem para prover a criança em idade escolar de experiências que não se limitem ao aprendizado, ainda fortemente baseado na capacidade de absorver informações. Mais importante do que decorar é adquirir sapiência, sabedoria, experimentação em todos os aspectos garantidores de uma formação saudável. Quem nunca pôs o pé na terra, nunca subiu em árvore, nunca atravessou um riacho, não montou num cavalo ou ordenhou uma vaca, perdeu grande parte de sua capacidade de interagir com o mundo.

Por sinal, a ajuda de empresas, de pessoas físicas, de todos os que puderem auxiliar a implementação de hortas escolares é muito bem-vinda. Além da escassez de recursos financeiros, há escassez de braços e de boa vontade, para um empreendimento que é fundamental para assegurar um futuro mais digno às gerações do porvir.

Ademais, a Terra está pedindo socorro e se não convertermos as crianças à causa ecológica, a elas será reservado um destino pouco promissor. Por nossa culpa, é lógico. A preocupação com o ambiente chegou tarde para algumas gerações muito cruéis, dentre as quais não excluo a minha.