Publicado 21 de Julho de 2016 - 5h30

Sem condições financeiras e vivendo de forma precária em um pequeno barraco de madeira no Jardim Rosália 1, em Campinas, a dona de casa Cíntia Silva Gomes, de 22 anos, faz um apelo: deseja uma prótese. Ela perdeu parte da perna esquerda quando tinha 9 anos ao praticar surfe em um trem. Na época, ela morava ao lado da linha férrea no Parque Shalon e uma das brincadeiras da criançada do bairro era pular de vagão para vagão com o trem em movimento. No dia do acidente, a sandália ficou enroscada em um parafuso do dormente da linha férrea e ela não conseguiu tirar o pé antes que a roda do trem a atingisse.

Além de ter do joelho para baixo arrancado, parte da mão esquerda também foi decepada. “Só não morri porque meu irmão mais velho, o Cleberson, me achou e me socorreu”, contou. “Eu cai em um local escuro, perto do mato, e ninguém viu. Gritei muito e ele me ouviu. Tive muita hemorragia e fiquei três meses em estado grave no Hospital Mário Gatti”, lembrou.

Atualmente ela usa uma muleta emprestada para se locomover. Sua primeira prótese foi quando tinha 12 anos, presente do Hospital Boldrini. Mas com o uso e o fato de crescer e ter engordado, acabou quebrando o equipamento. Depois de um certo tempo ela conseguiu junto a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) de São Paulo uma segunda prótese, que durou cerca de um ano. “O silicone e a meia rasgaram”, justificou.

Filhos

Há dois anos ela tenta nova prótese, mas sem sucesso. Cíntia é mãe de três filhos — de 8, 3 e 1 ano e nove meses, o mais velho mora com a avó materna — e vive com a mãe e dois irmãos. Para ajudar em casa, ela e a mãe, Eliane, de 47 anos, recolhem materiais para reciclagem.

Como não tem com que deixar Kelvin, de 1 ano e nove meses e Kauã Henrique Dantas, de 3 anos, na época das férias, elas levam as crianças junto para as ruas. Para ajudar a mãe, ela usa uma das mãos para apoiar a muleta e a outra para empurrar a carroça. Elas chegam a caminhar mais de 10 quilômetros por dia. “Se tivesse a prótese seria bem melhor. Já não aguento mais carregar o meu menino pequeno”, justificou.

Na época de aula, ela caminha quase três quilômetros para deixar os filhos na creche. Quando eles não estão na carroça, Cíntia encaixa um deles no quadril direito e sai a pé. Kauã vai a pé, sempre ao seu lado.