Publicado 21 de Julho de 2016 - 5h30

Tem dia que a palavra cidadania perde todo o seu sentido. E a tarde de uma quarta-feira me trouxe o argumento, dia em que escrevo esta pobre crônica.

Lembrei da senhora que acompanhava e trabalhava junto ao marido catando papelão pela cidade. Foi coisa boba, das muitas que acontecem por aí. Alguém tentou assaltá-la e ela, pela pobreza que sempre viveu, se assustou e foi baleada. Morreu num canto qualquer do Mercadão. E o marido seguiu seu caminho ainda mais só. E o que é pior: as noites se seguiram cada vez mais frias. Eu conheci o homem e, ele apenas disse que era coisa da vida.

A cada dia que passa um pouco da nossa cidadania é assassinada por alguma notícia. E vem um desespero em não mais acreditar em quem quer que seja. Viver está se tornando uma coisa complicada. Consome-se, frequenta-se os melhores restaurantes, e o medo está em qualquer esquina.

E o medo é a mais sincera das emoções do homem. E um velho caipira do Vale da Ribeira, numa certa tarde, me disse que é o medo que mantém o homem vivo. E acrescentou que o melhor dos medos é o medo de sentir medo. Levei anos para entender. Mas hoje ando pelas ruas da minha cidade com medo de não sentir medo. E venho andando sem sentir medo. Medo idiota, medo das minhas próprias atitudes. E virei um idiota.

Arrancaram de mim o sentido do medo. Mas nada fizeram para que eu não mais sentisse compaixão. Ou mesmo saudade. Tudo o que fizeram foi arrancar o medo das minhas entranhas e deixar que os meus ossos caminhassem por aí, pássaro no ar, lambari pelos rios. E a morte da catadora de papelão não é diferente das mortes dos muitos cidadãos que são assassinados pelas esquinas da cidade, muitos, aliás, imersos em medos naturais.

Jornais, revistas e televisão comentam os altos bastidores da política nacional, o envolvimento de pessoas acima de qualquer suspeita em escândalos financeiros, e tudo parece um folhetim, uma novela qualquer. E diante disso não temos sequer o direito de sentir medo; apenas aquele arrepio idiota de quem sabe estar desprotegido. E é só.

Tenho um quase nada de sono, um arremedo que seja da pequena Morte. A única luz que brilha é a da tela da televisão. E levanto para um café com leite e pão com manteiga...

Tenho que cumprir horas e horas de pensar na vida, no meu corpo, na minha cama, do jeito que as coisas ficarão nesses dias e noites frias; a solidão e a morte são irmãs e, ambas, são idiotas. Desprezo-as.

Os muitos bares da cidade acenam saudades antigas e a minha cabeça não é um museu. Fico em mim e ao lado de alguém a quem não posso recusar nenhuma palavra; e mesmo assim ando com a alma a esmo.

Livrai-me, deuses, das penúrias da noite, dos medos e aflições que ela sempre traz. É uma velha oração que aprendi pelo catecismo dos bares, das ruas, dos bardos vagabundos das feiras livres. E desejo apenas adormecer e, se possível, sem sonhos; apenas curtir uma pequena e rápida morte. E renascer fortalecido por mais uma noite de guerrilhas travadas entre neurônios, ouvidos, ossos e carnes.

E é por inveja das mais puras almas que ando pela cidade para ver jovens e homens velhos com suas companheiras, ao abraço da vida e ao calor do corpo.

Há algo rançoso na distância, que apodrece e cheira mal. Lida-se com a presença, mas a distância é sempre maior que o conhecimento da humanidade, da eterna espera para se fazer cumprir a sina do ato da paixão que nos leva à democracia do sofrimento; a dor pertence a todos nós, embora doa mais em quem fica à espera.

Lavo a minha pele e os meus pelos com água quente e sabonete. Fecho os olhos e o aroma da lavanda é a única companhia para os meus sentidos. E abraço a mim para o desespero de todos os meus sentidos, um autoflagelo sem retorno penitenciário; não há pecado a ser expiado, não há nada além de um vazio de mares, escarpas distantes e precipícios da alma. Só a vida.

Faço o que posso para manter a aparência normal de quem sabe que a vida é mesmo assim. E assim me engano; assim espero; que venha uma notícia qualquer que possa confirmar esse meu abandono. E assim digo: mulher amada nenhuma deveria adormecer em terras distantes...

Bom dia.