Publicado 20 de Julho de 2016 - 5h30

Em um texto curto publicado na internet, uma professora de Literatura argumentou que os alunos precisam ser incentivados a adquirir o hábito da leitura desde cedo. Até aí, estivemos de pleno acordo. No entanto, disse ela na sequência, que pouco importam os livros que os jovens estejam lendo, contanto que leiam algum livro.

Penso que essa linha de raciocínio, defendida de modo cada vez mais habitual, constitui um equívoco grave e está na raiz das crescentes dificuldades experimentadas pelos alunos da educação básica, para interpretar qualquer texto de complexidade média e da dificuldade ainda maior para redigirem bons textos. Em palestra sobre o ensino de idiomas, proferida no último sábado na cidade de Campinas, o professor Rafael Falcón, especialista em letras clássicas, ofereceu um exemplo bastante didático da influência que a maneira como travamos o primeiro contato com um novo tipo de linguagem pode influenciar decisivamente a relação que com ela teremos para todo o sempre. Comparando dois métodos de ensino de latim, o palestrante colocou em evidência as seguintes deficiências: o primeiro pecava pela falta de didática; o segundo, por apresentar o idioma de maneira excessivamente informal, infantilizando ao extremo o público que dele fizesse uso.

Endossando uma conclusão extraída dessa comparação, penso que é de importância capital ensinar aos jovens que existe uma diferença entre linguagem formal e linguagem informal, e que cada uma delas possui uma esfera própria cuja jurisdição deve ser respeitada. O que vemos cada vez mais acontecer é uma invasão indevida da linguagem informal nos campos em que deveria reinar a linguagem formal, uma vez que existem situações da vida humana marcadas por um forte grau de solenidade: um casamento, um julgamento, um discurso parlamentar, uma homilia e uma aula — em qualquer série do ensino — são momentos que não podem submergir no oceano das banalidades, sob pena de ficarem completamente descaracterizados.

Talvez o principal argumento esgrimido pelos partidários da informalidade irrestrita, é aquele segundo o qual a linguagem formal é elitista e excludente, e que corrigir alguém que fala ou escreve de modo incorreto constitui preconceito linguístico, uma imposição das elites sobre os oprimidos. Nada mais falso. A prova cabal disso é que, quanto menos recursos expressivos uma pessoa dominar, menor será sua capacidade de se expressar e mais facilmente dominada ela será. Basta ver como hoje em dia qualquer publicitário mediano consegue convencer contingentes cada vez maiores de pessoas a gastarem tudo o que possuem, e o que não possuem, para adquirir produtos completamente inúteis.

O meio pelo qual se adquire esse domínio da linguagem que enriquece o universo comunicativo do indivíduo, é a leitura dos livros canônicamente reconhecidos como os melhores, e não de qualquer livro. Se os sistemas de ensino básico partirem do pressuposto, segundo o qual o critério para escolher as primeiras leituras dos jovens seja o prazer, correremos o risco de envenená-los com modas do momento, livros cujo enredo e cuja linguagem deixam muito a desejar, e, pior, nada nos garantirá que, ao avançarem em idade, esses alunos trilharão o caminho árduo, mas recompensador, que dá acesso ao tesouro da linguagem formal, verdadeiro portal para a liberdade.