Publicado 12 de Julho de 2016 - 5h30

Por mais de uma vez, vi em alguns carros um adesivo de um homem em cima de um cavalo laçando uma mulher que caminhava à frente. No adesivo a mulher está de costas e é laçada nitidamente de surpresa pelo rapaz. Em princípio, esse tipo de imagem pode parecer um ato inofensivo e até divertido, mas não é bem assim.

Os dados de violência contra mulher no Brasil são alarmantes. Uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no País, e mais da metade das mulheres sofrerá algum tipo de violência durante a vida. E não apenas as mulheres que devem ficar preocupadas com essa situação, nós homens também devemos tomar providências quanto a isso. O caso do estupro coletivo que aconteceu no Rio de Janeiro e que teve grande repercussão na mídia é mais um dentre as centenas que ocorrem em um só dia. Uma violência crônica que afeta a sociedade.

Mas de onde vem toda essa violência? Sem dúvidas que há os casos isolados de distúrbios psicológicos, mas me parece que a maioria desses crimes são motivados pelo fato dos homens acreditarem que simplesmente podem fazer isso, pois enxergam a mulher apenas como um objeto, que é laçado como um boi. Na verdade, a violência física começa na violência simbólica.

Os símbolos remetem a conceitos e ideias que vão se aglutinando e formando aquilo que chamamos de cultura. A cultura, por sua vez, envolve todos os nossos valores, nossos costumes, nossos hábitos e o que julgamos certo e errado. A cultura move-se como um polvo, com vários braços que acabam levando para esta ou aquela direção. É nítido como a cultura muda, dependendo da época e do lugar. Numa outra época, havia a discussão se pessoas negras tinham ou não almas; em outros lugares, é comum comer insetos. Tudo isso é cultura, que envolve os valores e costumes que norteiam uma sociedade.

Ou seja, nossos hábitos, aquilo que julgamos “certo” e “errado” e os valores para tais julgamentos, são construídos pela cultura, de acordo com a época e local. Há formas diretas para a construção desses conceitos, como “faça aquilo” ou “não faça isso”, mas há ainda outras formas, mais indiretas, que também participam desse processo. Quando vemos uma propaganda “compre” ou “beba” tal produto e uma imagem de fundo com esse produto apresentando-o de uma forma que nos parece gostoso e nos desperte o apetite, há os dois elementos, o primeiro direto e o segundo como um símbolo que nos remete a uma ideia.

Desta forma, sempre que transmitimos uma ideia, seja de forma direta ou de forma simbólica, estamos ajudando na construção de determinados conceitos. Transferindo isso para nossas atitudes do cotidiano, quando nos “habituamos” com a violência e achamos normal um cara puxar o cabelo de uma mulher na balada, falar grosserias para elas na rua, invadir sua liberdade de qualquer forma, somando-se ainda símbolos que estimulam tal violência, a violência simbólica acaba transformando-se em violência física. Os dados são tão significativos que a violência contra a mulher tornou-se quase um costume, fazendo parte de uma cultura. Portanto, ostentar um símbolo que remete a um ato violento auxilia para que tais atitudes continuem. A partir do momento que temos tal consciência, podemos saber a real responsabilidade naquilo que falamos e fazemos.

Toda a cultura é construída pela sociedade, portando, pode ser reconstruída. Precisamos desconstruir essa cultura de violência. Ou seja, é importante sabermos nosso papel nisso tudo, desde compartilhar um símbolo que, aparentemente pode ser inofensivo, mas que contribui sim para uma cultura que acredita ser “natural” a violência.