Publicado 10 de Julho de 2016 - 5h30

O deputado Eduardo Cunha renunciou à Presidência da Câmara Federal. Não é pouca coisa: o cargo é o segundo mais importante do Brasil. Dilma Rousseff, a presidente afastada, poderia fazer o mesmo mas não o fará: falta-lhe desapego político e tampouco noção do ridículo.

Eduardo Cunha renunciou para salvar seu mandato de deputado. Se ele embargou a voz, chorou sei lá, isso não importa. O fato é que ele abriu uma nova temporada de caça à Presidência da Câmara. E se o presidente interino Michel Temer tiver um mínimo de juízo não vai se meter nessa encrenca – a exemplo do que fez Dilma Rousseff quando meteu seu narizinho em assunto do Legislativo. Seu candidato a então presidência da Câmara, Arlindo Chinaglia, foi fragorosamente derrotado por Eduardo Cunha e nasceu aí a inimizade entre Dilma e Cunha. E deu no que deu: Dilma está afastada da Presidência da República e Cunha renunciou.

E nada muda, contudo.

Um dos pré-candidatos à vaga de Cunha é o deputado Marcelo Castro (PMDB-PI). Ex-ministro da Saúde no governo Dilma Rousseff, em 17 de fevereiro de 2016 pediu a saída do Ministério para votar contra o impeachment da sua patroa. Como deu tudo errado, entregou a sua carta de demissão dez dias depois.

Carlos Manato (SD-ES), corregedor da Câmara é outro pré. Ele ficou famoso quando foi flagrado fazendo um bolão no dia da votação do empichamento da presidente Dilma. Um corregedor brincando em situação tão séria deve dar um bom presidente da Câmara, pelo visto.

Andei pesquisando a vida de um outro pré-candidato, Carlos Henrique Gaguin (PTN-TO). Em 2010 ele foi acusado de fraudar licitações durante seu mandato de governador no Estado de Tocantins, em parceria com o seu amigo e lobista Maurício Manduca e o empresário José Carlos Cepera. Não precisei ir muito a fundo. Lembrei que Maurício Manduca e Carlos Cepera foram condenados, aqui em Campinas, há mais de 12 anos de prisão por envolvimento com a quadrilha que vinha desviando centenas de milhões de reais da Sanasa - no governo Hélio de Oliveira Santos, é claro.

Voltando, Gaguin e seus asseclas foram acusados de desviar um bilhão de reais. Ele chegou até mesmo a declarar, em 2010, que havia cometido muitos pecados, e que “se o mundo acabasse” ele iria para o inferno. Não sei se a Presidência da Câmara Federal é um inferno, mas, pelo visto, é um rápido caminho.

Outro pré-candidato, Fausto Pinato (PP-SP), tem entre suas empresas doadoras de sua última campanha eleitoral a Constran, a Construção e a Queiroz Galvão, todas elas investigadas na Operação Lava Jato. O seu patrimônio declarado em 2014 foi de apenas 117 mil reais. É um pobre coitado, não é mesmo?

E o que dizer do deputado Beto Mansur, sério candidato a substituir o renunciado Eduardo Cunha? Pois é, em 2005, a revista Isto É publicou uma reportagem sobre uma operação movida pelo Ministério do Trabalho que encontrou 46 homens em situação degradante nas fazendas do Beto Mansur, sendo que o salário dos trabalhadores era usado para pagar o que comiam. Condenado por trabalho escravo, em junho de 2015 o STF arquivou o inquérito a pedido do atual procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Segundo ele, houve desrespeito aos direitos trabalhistas, mas não materialidade para comprovar o trabalho escravo. Beto Mansur pagou 200 mil reais por dano moral coletivo e a vida dele segue que é uma beleza.

E vou parando por aqui, meu raro leitor, visto que tudo o que escrevi acima não passa do mais do mesmo. E esses pré-candidatos não são nem a metade dos interessados a substituir Eduardo Cunha. E tenha um bom domingo. E um bom estômago. É isso.

Bom dia.