Publicado 08 de Julho de 2016 - 5h30

O País já se acostumou aos sobressaltos da política. Desde o aprofudamento da crise no Planalto e no Congresso Nacional, muitas foram as reviravoltas e os fatos que chacoalharam o noticiário. Prisões de políticos e empresários de grande envergadura, idas e vindas da judicialização do impeachment de Dilma Rousseff (PT), revelações bombásticas embasadas por grampos os mais diversos, troca de sopapos entre políticos e militantes rivais, impacto econômico do desgoverno petista, enfim, muitos pesadelos e pouca calmaria no horizonte.

Nesta quinta-feira, o protagonismo coube a Eduardo Cunha, um personagem central da crise, acusado por petistas e aliados de arquitetar habilmente o afastamento de Dilma, e atolado em acusações de corrupção, com dois processos já acolhidos por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF) — o caso das contas na Suíça e o suposto recebimento de propina no episódio dos navios-sonda da Petrobras.

Se já não bastasse o que pesa sobre Cunha, sua mulher e filha também estão na mira do Ministério Público por, supostamente, terem sido beneficiárias de dinheiro público desviado para fins pessoais, um escândalo que já teria derrubado agentes públicos em qualquer país civilizado. Mas, no Brasil, fruto dos estratagemas jurídicos e da complacência institucional, a família Cunha, mesmo em maus lençóis, vinha sobrevivendo à avalanche investigativa.

É justamente por conta dessa intrincada teia de favores, amparada em acordos espúrios nada republicanos, que faz-se prudente não celebrar a renúncia de Cunha da presidência da Câmara dos Deputados. Sua sagacidade impõe a cautela necessária. É cedo para afirmar que a decisão abre caminho para expurgar da cena brasileira um político notoriamente manipulador.

Analistas entendem que sua renúncia é uma estratégia, assim como foi a maioria de seus atos no rito interno da Câmara. Cunha está, na verdade, avaliam especialistas, pavimentando uma solução que leve à manutenção de seu mandato, já que só falta a palavra do plenário sobre seu destino. O peemedebista estaria de olho na escolha de um aliado para conduzir a sessão derradeira e, em mais um lance de xadrez, talvez escapar da cassação.

Com esse histórico e sabedor do conhecimento sobre seus pares, chega a soar estranho o choro de Cunha durante o anúncio de ontem, uma reação pouco usual de quem notabilizou-se pelo severo julgamento de seus inimigos e por uma conduta reconhecidamente implacável. Há quem compare suas lágrimas a de um crocodilo, durante seu esforço para engolir a sua presa.