Publicado 20 de Julho de 2016 - 22h38

Alexander Skarsgård em cena de 'A Lenda de Tarzan', que estreia nos cinemas do Brasil

Jonathan Olley / Divulgação

Alexander Skarsgård em cena de 'A Lenda de Tarzan', que estreia nos cinemas do Brasil

O título da nova empreitada cinematográfica sobre o menino criado na floresta por gorilas, que chega nesta quinta-feira (21) aos cinemas, não poderia ser melhor: 'A Lenda de Tarzan'. Afinal, o personagem criado por Edgar Rice Burroughs, assim como a história, estão no imaginário de gerações e, por isso, já foram ilustrados inúmeras vezes, de diferentes formas. Uma lenda que marcou, por exemplo, a carreira dos atores que deram vida ao rei da selva, como Johnny Weissmuller — o primeiro a vivê-lo no cinema falado e responsável pelo famoso grito de vitória do rapaz — e Ron Ely, o Tarzan da série produzida entre 1966 e 1968 pela rede NBC.

O sueco Alexander Skarsgård, conhecido por dar vida ao vampiro Eric da série 'True Blood', sempre soube, portanto, que ao aceitar ser o novo Tarzan, assim como aconteceu com seus colegas, a chance de o personagem segui-lo por toda a sua carreira seria gigantesca. Mesmo assim, ele confessa, em entrevista ao Caderno C durante sua visita ao Brasil para divulgar o longa-metragem esta semana, não ter pensado muito sobre isso na hora de embarcar no papel.

“Eu não tive nem tempo de me estressar com a pressão que eu teria porque já comecei um trabalho muito legal com o diretor David Yates (da franquia Harry Potter), uma das pessoas mais fantásticas que conheci. E mesmo nas minhas pesquisas, eu olhava para os livros do Edgar e tudo o que eu pensava era que precisava fazer o meu Tarzan de uma folha em branco”, diz o simpático ator, de 39 anos. “Mas eu sei, no fundo, que estar num filme desse tamanho, o maior da minha carreira, em um personagem tão icônico é algo que vai me seguir pelo resto da minha vida. Eu só não me preocupo com isso porque o tempo que passei trabalhando nele foram os melhores possíveis. Felizmente não foi uma época miserável ou que eu não gostasse e que eu ainda teria que ficar me lamentando por passar mais 15 anos preso nisso”, completou, aos risos.

Alexander, assim como muitos, conhece bem outras versões sobre o rei da selva. Ele conta ser fã de Tarzan “desde que eu era pequeno” já que seu pai, o também ator Stellan Skarsgård, também gostava do personagem. “Ele amava as história do Tarzan, ele cresceu vendo os filmes do Johnny Weissmuller. Então ele me introduziu ao personagem. Eu brinco de ser Tarzan desde que eu tinha 6 anos, então naturalmente foi muito excitante quando eu soube que estavam fazendo um novo projeto sobre o personagem e que eu poderia estar nele.”

Foto: Divulgação

Alexander Skarsgard durante lançamento do filme em São Paulo

Alexander Skarsgard durante lançamento do filme em São Paulo

História revisitada

Apresentar a mesma história de sempre sobre o Tarzan, um bebê que perde os pais na floresta e é criado por uma gorila, provavelmente não funcionaria nos tempos atuais. Mas qual seria, então, o enfoque de 'A Lenda de Tarzan'? “Foi justamente isso que me pegou. Eu estava muito curioso para saber como seria a abordagem, porque o personagem é tão icônico, tão famoso, já foi visto tantas vezes, que eu queria saber o que seria a diferente desta vez. Então fiquei muito surpreso e feliz quando li o roteiro e vi que tudo começaria em Londres e que eles fariam o caminho inverso da jornada que conhecemos dos livros”, explica o ator Alexander Skarsgård.

Assim que o filme começa, antes de vermos o Tarzan, somos apresentados a John Clayton III (Alexander Skarsgård), em suas roupas engomadinhas. Ele aparentemente já deixou para trás a vida selvagem e vive feliz com Jane (Margot Robbie) na Inglaterra. Porém, a trama leva o herói de volta ao Congo, na África, onde ele precisa resolver questões antigas (com o meio-irmão macaco e um chefe nativo que o quer morto por sérias razões) e ainda impedir que o emissário do rei belga, o ambicioso Capitão Rom (Christoph Waltz), escravize o país para ter acesso aos diamantes de Opar.

“É um filme sobre o retorno. E é fascinante pensar como homem e como fera, ver que muitas vezes tentamos nos civilizar e nem sempre conseguimos. Nós, educadamente, vivemos com outras pessoas, educadamente ficamos na fila nos Correios, mas no fundo ainda somos animais”, diz o sueco. “E sempre fui fascinado em como esse lado, muitas vezes, aflora. Fazer o filme foi uma oportunidade de levar isso ao extremo, transformar um lorde inglês em um animal.”

Alexander é mais um ator escandinavo voando alto em Hollywood. É amigo próximo, por exemplo, de Alicia Vikander (vencedora do Oscar por 'A Garota Dinamarquesa') e que o cenário está bem diferente de 12 anos atrás, quando se mudou para a capital do cinema. Mas que nada disso mudará sua visão de carreira. “Sempre fiz filmes independentes, inclusive depois que filmei 'Tarzan'. Não vejo esse filme como a minha chance. Não sinto que me graduei nas produções pequenas e que agora vou ser um super-herói de blockbusters. Quero e espero continuar em produções que acredito nos dois segmentos.”

CRÍTICA

Esqueça frases como “me Tarzan, you Jane”. Aliás, esqueça o próprio “rei da selva”, pelo menos por um momento. Nada de selvageria, vocabulário precário, pouca roupa. O público será apresentado ao educado John Clayton III. O rapaz vivido por Alexander Skarsgård é apenas mais um entre os muitos lordes da Inglaterra — só mais famoso que os demais, já que num passado relativamente distante, ele foi Tarzan. É dessa fama que o americano George Washington Williams (Samuel L. Jackson) precisa. Ele, que representa os Estados Unidos, junto com chefes europeus querem provar que a Bélgica, totalmente endividada, está aprontando algo grave no Congo. Para isso, primeiro, eles precisam descobrir o que é. Segundo, ao desvendar o mistério, apenas alguém com a reputação de John Clayton III pode convencer o mundo do que viu. Uma missão que John não gostaria de ter nas costas, mas muda de ideia ao ser lembrado que o povo do país onde cresceu Tarzan pode estar escravizado — mesmo ele tendo visto os africanos como inimigos a vida toda, já que eles sempre foram uma ameaça aos seus irmãos macacos. Esse paradoxo, difícil de lidar por um homem aparentemente civilizado com uma fera interior dominando sua personalidade, percorre todo o longa de David Yates, em boa parte do tempo em doses certeiras. Claro que fazer o que acha certo não é a única razão para tamanha aventura. “Tarzan salva Jane” também faz parte do enredo, aflorando novamente o animal que ali vive. Mas a mocinha nem de longe é uma donzela, como poderia se esperar. Acrescente ainda à trama paisagens espetaculares e um bom vilão e se tem um filme acessível, divertido, romântico e muito bem feito. Yates pesa a mão apenas no final, bem exagerado, mas que não estraga o prazer de se aventurar nesta quase encantada floresta.