Publicado 13 de Julho de 2016 - 21h44

Por Delma Medeiros

Carlos Augusto Ribeiro, um dos entrevistados do filme, em baile com a irmã

Rafael Jorge / Divulgação

Carlos Augusto Ribeiro, um dos entrevistados do filme, em baile com a irmã

Para marcar os 242 anos de Campinas, completados nesta quarta-feira (14), um programa diferente promete movimentar o Largo do Rosário, no Centro de Campinas. O documentário 'Baile para Matar Saudades', de Érica Giesbrecht, será exibido ao ar livre, dentro do projeto Cinema na Praça. 

O longa mergulha no baú de memórias de cinco artistas negros de Campinas e resgata capítulos importantes da história da cidade, a partir da comunidade negra. “Há uns 10 anos pesquiso a musicalidade da comunidade negra. Isso foi tema do meu trabalho de doutorado na Unicamp. Para o pós-doutorado na USP (Universidade São Paulo), pensei em recuperar o assunto pela vida das pessoas mais velhas. Então procurei representantes de espaços voltados à cultura negra como o Jongo Dito Ribeiro, Banda dos Homens de Cor, Urucungos, Puítas e Quijengues, Casa de Cultura Tainã e o Centro Cultural Machadinho. Como todos faziam menção aos famosos bailes de gala que a comunidade promovia nas décadas de 1940 e 50, pensei em recriar essa atmosfera”, explica a diretora.

Para tanto, promoveu dois bailes, um em 2014, no Clube Regatas, com apoio do Centro Cultural Machadinho e da Secretaria de Cultura, e outro no ano passado no Clube Bonfim. “Mas, o principal material veio da memórias dos artistas. A impressão, durante as conversas, é que eles voltavam no tempo. É um resgate da história de Campinas pelos olhos da comunidade negra”, afirma.

O projeto envolveu muitas pessoas, mas os destaques ficaram com cinco artistas, com idades entre 70 e 90 anos, engajados no movimento cultural negro da cidade, do qual participam com sua música, dança e oralidade. O músico José Antônio, de 94 anos, que por anos presidiu a Banda dos Homens de Cor, é um dos destaques.

“Não frequentei os bailes daquela época, mas considero o documentário importante para resgatar essas histórias e lembrar das ações da comunidade”, afirma. Além dele, protagonizam o longa o artista plástico Aluízio Jeremias, Carlos Augusto Ribeiro — o tio Dudu, do Jongo Dito Ribeiro, Rosária Antônia, mais conhecida como a cantora Sinhá, e Leonice Sampaio, a tia Nice do Acarajé e integrante do conselho deliberativo do Machadinho.

O músico Antônio Carlos Santos Silva, o TC, coordenador da Casa Tainã, lembra do sucesso que foi o projeto do Baile da Pérola Negra, criado nos anos 1950 por Laudelina de Campos Mello, a tia Nini, militante e fundadora do primeiro sindicato de mulheres, o das empregadas domésticas. “Eram bailes bem organizados, que reproduziam o estilo das elites brancas, com o que discordo, mas que reunia a comunidade negra. A partir dessa ideia, muitos outros lugares abrigavam os bailes como o Clube Líbano, Casa de Portugal, União dos Viajantes, Tênis Clube, até que surgiu o Machadinho, o primeiro clube cultural para negros”, comenta, citando que atualmente existem outros espaços representativos da comunidade negra, como a Fazenda Roseira, Tainã e Urucungos.

“Embora sejam considerados mestres nas comunidades musicais atuais, suas memórias de mocidade não remetem diretamente a jongos, sambas de bumbo ou maracatus, mas a bailes de gala”, destaca Érica, lembrando que “como uma resposta elegante ao racismo, esses bailes reuniam centenas de pessoas, fortalecendo a experiência comunitária dos negros da cidade”.

Segundo ela, na conjuntura marcada pela segregação dos anos 1940 a 1960, no interior de São Paulo, esses bailes, frequentados majoritariamente por negros, são revisitados, evidenciando-se sua importância para a formação de uma comunidade negra iniciada no passado e continuada no presente. A recriação do evento contou com o apoio do Clube Cultural Machadinho.

Serviço

O quê: Cinema na Praça - Exibição do filme 'Baile para Matar Saudades'

Quando: nesta quarta-feira (14), às 19h

Onde: Largo do Rosário (Av. Francisco Glicério com Rua General Osório, Centro, Campinas)

Quanto: entrada franca

Escrito por:

Delma Medeiros