Publicado 22 de Julho de 2016 - 23h24

O autismo atinge uma em cada 100 crianças

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O autismo atinge uma em cada 100 crianças

Marcado por muitos preconceitos e estigmas, o autismo desafia a ciência. Ainda não conhecemos bem as causas deste transtorno que atinge uma em cada 100 crianças, mas sabemos que a genética possui um papel importante. Neste artigo, falaremos sobre suas características e tratamentos.

O autismo é uma síndrome, também chamada de transtorno global do desenvolvimento ou transtorno do espectro autista, que se manifesta de múltiplas maneiras. De modo geral, pode ser caracterizado por um comprometimento em diversas áreas do desenvolvimento, como nas habilidades de interação social recíproca, habilidades de comunicação ou presença de estereotipias de comportamento, interesses e atividades. Os prejuízos qualitativos que definem estas condições representam um desvio acentuado em relação ao nível de desenvolvimento ou idade mental do indivíduo. Em geral, as alterações se manifestam nos três primeiros anos de vida, variando em grau e intensidade.

Apesar de existirem diversos níveis de transtorno, boa parte dos casos compartilha prejuízos na comunicação, na interação social e apresentam padrões repetitivos que não possuem finalidade clara. São comportamentos cotidianos sistemáticos que, quando interrompidos ou alterados, causam extremo desconforto.

Em relação à comunicação, o autista tem dificuldade em perceber nuances de linguagem e decifrar códigos, sejam eles verbais ou presentes nas expressões faciais. Geralmente levam tudo ao pé da letra. Também apresentam muita atração por objetos que possuem formas circulares, como rodas e cata-ventos. E são intolerantes a determinados sons e a certos convívios sociais.

Essas particularidades interferem nos relacionamentos afetivos. Muitas pessoas que possuem o transtorno deixam de se relacionar e tornam-se dependentes dos familiares.

Como funciona o cérebro das pessoas com autismo?

No transtorno autista, a rede de neurônios que coordena no cérebro a comunicação e os contatos sociais está organizada de uma forma distinta. São essas conexões diferentes que podem propiciar o desenvolvimento de habilidades específicas como um ótimo raciocínio matemático ou aptidões artísticas.

Estudos mostram que há certas alterações cerebrais em regiões como o cerebelo, a amígdala, o hipocampo, gânglios da base e corpo caloso. Ou seja, esses indivíduos possuem um funcionamento anormal do cérebro que leva os autistas a observarem o mundo de forma fragmentada, apresentando dificuldade em visualizar e analisar o contexto das coisas.

São várias as possíveis causas do autismo. Atualmente, a hipótese mais aceita é que alguns sintomas e mutações genéticas são resultado de alguma falha de comunicação entre regiões do cérebro. Assim novas conexões neurais, estimuladas por terapia, poderiam ser formadas a fim de compensar essas falhas. No entanto, as anormalidades celulares e metabólicas permanecem desconhecidas. Mesmo que as pesquisas sobre o tema estejam em constante avanço, ainda há uma distância muito grande na compreensão desse fenômeno.

Outros estudos post-mortem revelaram áreas de anormalidade anatômica no sistema límbico, em que o hipocampo, a amígdala e o córtex entorrinal (zona do cérebro associada à memória) mostram um tamanho relativamente pequeno das células e uma maior densidade de células em todas as idades, no qual sugere um padrão consistente com a restrição de desenvolvimento no cerebelo e oliva inferior (envolvida no controle motor).

Também já foi descoberto que existem anormalidades no lobo temporal, localizadas nos sulcos temporais superiores bilateralmente, uma região que desempenha um papel importante na percepção e nos estímulos sociais. Outra região bastante estudada quando se refere ao autismo é a amígdala, igualmente envolvida nos processos emocionais e sociais.

Embora haja um conhecimento das áreas cerebrais envolvidas, não há uma demarcação exata que possibilite definir as sub-regiões ou os núcleos que estão envolvidos. Dessa maneira, o diagnóstico do autista é baseado em critérios comportamentais. Os exames de imagem também são utilizados, ajudando a visualizar as áreas comprometidas e permitindo que o tratamento adequado seja traçado.

Tratamento

Na maioria dos casos, os pais percebem que a criança que possui autismo com poucos meses de vida, quando já apresenta comportamentos anormais como a apatia, poucas reações emocionais e falta de contato visual durante a amamentação. As crianças maiores podem mostrar sinais de hiperatividade e a relação que desenvolvem com os brinquedos são diferentes. Ao invés de brincarem com carrinhos, por exemplo, costumam organizá-los por cor e tamanho.

Assim que essas características são notadas, é necessário buscar atendimento médico o mais rápido possível. Quanto antes for diagnosticado o transtorno, melhor, pois a demora dificulta o tratamento, já que o autismo se instala nos anos iniciais de vida, quando os neurônios que coordenam a comunicação e os relacionamentos sociais deixam de formar as conexões necessárias. Embora não tenha cura, esses neurônios perdem a chance de ser estimulados na hora certa e não se desenvolvem quando o tratamento tarda.

Muitas vezes, o indivíduo autista necessita de cuidados diários. Em outros casos, pacientes que possuem espectro mais leves do transtorno não apresentam comprometimento na cognição ou na fala, mas possuem comportamentos sistemáticos e metódicos. Muitas dessas pessoas exercem atividades fantásticas, como as relatadas no filme Rain Man, de 1988, época em que o transtorno era pouco divulgado. O personagem de Dustin Hoffman, Raymond, viveu grande parte de sua vida em uma instituição para pessoas com transtornos mentais, pois o pai o considerava perigoso para a sociedade. Foi com a aproximação de Charles Babbit, seu irmão mais velho, interpretado por Tom Cruise, que pôde desenvolver confiança e afeto, além de mostrar suas habilidades, principalmente a sua capacidade espantosa com números.

Cena do filme 'Rain Man'

Como as origens do autismo não são exatamente conhecidas existe muitas terapias. O mais indicado é criar um sistema multidisciplinar de especialistas que envolvam psicólogos, fonoaudiólogos, neurologistas, terapeutas ocupacionais, psiquiatras e neuropediatras especializados no problema.

A psicoterapia, em especial a terapia comportamental, é o modelo de tratamento mais utilizado. Esse tipo de terapia auxilia a controlar a agressividade das crianças e a criar maneiras para elas se comunicarem. Os indivíduos aprendem a ter autonomia em tarefas cotidianas e a depender menos de suas famílias.

A alimentação também precisa ser levada em consideração, já que muitos indivíduos costumam ser seletivos e até mesmo comer apenas um tipo de alimento. É necessário orientação e apoio médico para que não ocorra deficiência de nutrientes.

A família que perceber alterações em seu filho deve procurar atendimento médico especializado ou buscar apoio os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Em nosso próximo encontro, conheceremos outros aspectos interessantes sobre nosso cérebro. Até lá.

Envie sua pergunta ao Dr. Feres Chaddad Neto, pelo e-mail [email protected]

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