Publicado 24 de Julho de 2016 - 7h30

Por Gustavo Abdel

Catedral: imponente pelo Centro de Campinas, não imagina que ela já foi uma construção humilde

Dominique Torquato/AAN

Catedral: imponente pelo Centro de Campinas, não imagina que ela já foi uma construção humilde

Campinas ganhou recentemente um importante resgate de sua história, em um estudo capaz de compreender o desenvolvimento do município a partir da construção da Catedral Metropolitana. Durante três anos de intensa pesquisa e mais um ano de agrupamento das informações, a pesquisadora da História da Arte Paula Elizabeth de Maria Barrantes, de 46 anos, conseguiu reunir dados inéditos e relevantes acerca da história da construção da igreja. O livro Da Taipa ao Concreto Armado: O acervo artístico e arquitetônico da Catedral Nossa Senhora da Conceição de Campinas traz a catalogação e o levantamento das pinturas, esculturas, trabalhos de talha, detalhes arquitetônicos e mobiliário artístico que chegaram à Matriz Nova, hoje Catedral Metropolitana de Campinas, entre os anos de 1840 e 1923.

Foto: Dominique Torquato/AAN

Catedral Metropolitana de Campinas hoje, por fora

Catedral Metropolitana de Campinas hoje, por fora

A publicação de 358 páginas foi lançada em dezembro do ano passado, pela editora Chiado, e coroou um intenso trabalho que começou com a dissertação de mestrado de Paula, defendida em 2014 no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob orientação do professor Jorge Coli. É considerado o trabalho mais completo sobre esse patrimônio.

Administradora de empresa e engenheira, Paula sempre foi apaixonada por história e arte, e resolveu unir as paixões encontrando um patrimônio de Campinas que merecesse uma atenção especial. “Tinha visitado vários pontos de Campinas. Mas quando entrei na Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Conceição, fiquei espantada com o acervo deles. Perguntava sobre as obras e ninguém sabia de nada.

Obras, entalhes, altares e até mesmo o relógio estavam sem registro histórico agrupados”, disse a autora. Ela, então, elaborou um projeto de pesquisa e esse foi aprovado, com o nobre propósito de “salvar” a memória e a riqueza da igreja, já que, segundo ela, as pessoas foram perdendo a história com o templo.

De 2011 a 2014 Paula escarafunchou documentos e espaços do templo. Fez pesquisa nos acervos históricos da própria Catedral, da Irmandade do Santíssimo, Câmara Municipal, Arquivo Municipal de Campinas (onde as pastas estão quase vazias), em São Paulo, no Centro de Memória e na documentação em microfilme do Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), do IFCH. Fotografou o acervo e descreveu iconograficamente cada obra estudada.

Foi por meio das 1,2 mil páginas do livro-tombo, que fica guardado na Arquidiocese, que Paula conseguiu acompanhar o registro das peças que foram chegando. Em seu trabalho, observou que o acervo nasceu para Nossa Senhora da Conceição, e não para a Matriz.

Foto: Patrícia Domingos/AAN

A pesquisadora Paula Elizabeth de Maria Barrantes se debruçou durante três anos em arquivos e documentos para contar a evolução do templo em detalhes

A pesquisadora Paula Elizabeth de Maria Barrantes se debruçou durante três anos em arquivos e documentos para contar a evolução do templo em detalhes

“A Conceição antes era a matriz velha, que hoje é onde está a Igreja do Carmo. E da divisão da paróquia, em 1870, o acervo da Conceição ficou no Rosário e a matriz do Carmo começou o acervo dela. Então era preciso procurar por Nossa Senhora da Conceição e foi aí que eu tive que resgatar toda a documentação”, contou.

A demora

No livro, a cronologia da obra é relatada em detalhes que até então estavam dispersos nos poucos registros sobre o templo. A Catedral começou a ser construída em 1809, depois de dois anos de reuniões e de arrecadação de impostos para começar a construção. Em 1812, morreu Felipe Nery Teixeira, o primeiro administrador, e a obra ficou parada.

De acordo com Paula, a política foi responsável pelo atraso de 76 anos até a sua inauguração. “A política causou todos os problemas dela. Era uma obra gerenciada toda pela Câmara. E até mesmo o Diretório das Obras (presidido por membros da elite) era eleito pela Câmara. As sucessões na sua direção causavam interrupções e até mesmo mudanças de rumos do projeto”, afirmou.

Em 1854 foi criado o imposto da Matriz Nova, quando todos os produtores de café tinham que pagar a taxa para finalizar a obra. No entanto, produtores conseguiram burlar esse pagamento até 1870. Com sede na cidade, a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro passou a receber os encargos de cobrança do imposto para a Matriz, e o açúcar e o café somente seriam transportados pelos trens caso houvesse o pagamento do imposto. Esse foi um dos principais capítulos sobre o avanço das obras da Catedral, que foi inaugurada somente em 1883.

Foto: Dominique Torquato/AAN

Catedral: imponente pelo Centro de Campinas, não imagina que ela já foi uma construção humilde

Catedral: imponente pelo Centro de Campinas, não imagina que ela já foi uma construção humilde

Obras da fachada mataram pelo menos dez operários

O livro é dividido em três partes. A primeira conta, por meio de plantas, a história das fachadas. Também traz todo o resgate das obras de talha, das imagens do patrimônio, de toda a decoração da fachada, as pinturas, vitrais, e a cronologia da Matriz e de seu acervo. Até 1846 a Catedral era somente uma caixa de taipa, com um simples telhado.

Durante a pesquisa da obra, Paula encontrou informações que atribui a quatro entalhadores o conjunto total da talha: Vitoriano dos Anjos, Bernardino de Sena, Raffaelo de Rosa e Marino Del Fávero — os dois últimos italianos. Também foi possível atribuir obras a cada um, cuja autoria, até o momento, era desconhecida.

Pelo menos dez pessoas morreram na construção da fachada. A primeira queda foi em 1965, causada pela falta de fundação e infraestrutura. No ano seguinte a fachada veio abaixo e matou mais cinco funcionários. Depois da terceira queda, em 1873, os idealizadores do movimento contrataram para dar seguimento à obra o engenheiro Cristóvão Bonini, da Estrada de Ferro Sorocabana.

A impressão do livro foi financiada pela Arquidiocese e pela Catedral. Ele está sendo comercializado na própria Catedral e no Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas, que tem a curadoria da própria Paula Barrantes. O museu ganhou uma nova sede, o Palácio Episcopal no bairro Nova Campinas, e foi todo reformulado. Para isso, foram necessários dois anos de trabalho para a transferência das peças da Catedral para a antiga residência dos bispos. Um trabalho realizado por uma equipe de sete pessoas, responsável pela preparação de um plano museológico e espográfico da instituição.

 

Escrito por:

Gustavo Abdel