Publicado 20 de Julho de 2016 - 21h00

Por Raquel Valli

Surdas e pedagoga conversam em Libras em shopping de Campinas

Raquel Valli/AAN

Surdas e pedagoga conversam em Libras em shopping de Campinas

A Promotoria de Justiça de Campinas instaurou um inquérito para apurar as condições de ensino dadas às crianças e adolescentes surdas na cidade. A investigação foi aberta a pedido da Associação dos Surdos de Campinas (Assucamp) e de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) preocupados com o fechamento das salas bilíngues - onde são ministradas Língua Brasileira de Sinais (Libras) e português. Hoje, só a Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Júlio de Mesquita Filho tem esse tipo de sala. Em 2012, havia cinco escolas-modelo. A Prefeitura tem até o dia 10 de agosto para responder aos questionamentos da Promotoria.

Tanto a Assucamp quanto o grupo de estudos da Unicamp sustentam que esse tipo de sala é imprescindível para que os surdos possam ser alfabetizados em Libras. Só a partir dessa alfabetização é que estariam aptos a participar de aulas mistas com estudantes que escutam e que aprendem em português. “Antes disso, fica isolado porque não entende nem Libras, nem o português”, disse a doutoura Lilian Cristine Ribeiro Nascimento, professora da Faculdade de Educação da Unicamp e membro do Grupo de Pesquisa DIS (Diferenças e Subjetividades em educação). 

A obrigatoriedade de salas bilíngues consta no decreto federal 5.626 de 2005, que define as diretrizes para a educação de surdos. “A atual política educacional (da Prefeitura), publicada no Diário Oficial de 27 de junho de 2016, não cumpre o decreto porque propõe a matrícula e a permanência dos alunos com surdez em sala comum congregada. Isso significa que em uma sala pode haver apenas um aluno surdo entre outros ouvintes. Esse fato não garante a aquisição da Libras pelo aluno, promovendo, seu isolamento”, disse Lilian.

Os docentes defendem que Campinas precisa de pelo menos três escolas-modelo (com salas de alfabetização de Libras): uma para o educação infantil, outra para a educação fundamental 1, e outra para o Ensino de Jovens e Adultos (EJA).

A dona de casa Tamara Lavrini Mobile de Freitas, de 34 anos, é surda e filha de surdos. A doença, no caso da família, é genética. Tamara foi alfabetizada em português aos 12 anos porque estudava, desde pequena, em salas compartilhadas.

“Eu sofri muito porque os professores não sabiam Libras. Foi um sofrimento muito grande. Sentava bem na frente, mas, mesmo assim, perdia muita coisa. Era muito ruim, e sempre precisava de reforço”, contou. A filha de Tamara, Thaís, também não escuta. “Mas, ela tem uma sorte que eu não tive. Ela estuda na Júlio de Mesquita, e foi alfabetizada tanto em Libras quanto em português”.

Outro lado

Por meio de assessoria de imprensa, a Prefeitura informou que irá estudar a demanda em relação às salas. A partir da decisão que o Poder Executivo tomar, o promotor de Justiça Rodrigo Augusto de Oliveira, afirmou que decidirá o que fazer. "Meu objetivo é buscar um consenso entre as aspirações dos surdos e dos pesquisadores com a Prefeitura" , informou o promotor, que coordena a questão. 

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Raquel Valli