Publicado 07 de Julho de 2016 - 21h39

Por Adriana Leite

Só olhando: consumidor passou o 1º semestre com a carteira bem fechada

Edu Fortes/AAN

Só olhando: consumidor passou o 1º semestre com a carteira bem fechada

O comércio da Região Metropolitana de Campinas (RMC) perdeu mais de R$ 500 milhões no primeiro semestre deste ano. A estimativa da Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic) é que o faturamento do varejo fechou o acumulado de janeiro a junho em R$ 15,3 bilhões, contra R$ 15,8 bilhões no ano passado, um recuo de 3,56%. Foi também o pior resultado desde 2004.

Não bastasse o consumidor parar de comprar, a inadimplência não deu trégua neste ano. No primeiro semestre, a quantidade de carnês em atraso há mais de 30 dias atingiu 330.336 documentos, num calote acumulado de R$ 216,2 milhões.

Balanço da Acic mostrou que o volume de consultas ao Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), termômetro do movimento no varejo, caiu 5,26% no primeiro semestre deste ano na RMC. A quantidade passou de 4,6 milhões para 4,36 milhões de consultas.

Os números do varejo regional foram fracos mesmo durante as datas especiais como Páscoa, Dia das Mães e Namorados. O coordenador do Departamento de Economia da Acic, Laerte Martins, afirmou que o frio em junho ajudou a alavancar vendas em relação a maio deste ano.

“Faço este levantamento há mais de 20 anos e nunca as vendas de junho superaram as de maio, por causa do Dia das Mães, que é a segunda melhor data do ano para o comércio. Mas este ano os números foram atípicos e mostram a intensidade com que o varejo está sentindo a crise econômica”.

Ele disse que o semestre foi muito ruim para os lojistas, ressaltando que o desempenho foi o pior desde 2004. “O comércio vive uma queda nas vendas e de alta na inadimplência. O consumidor está sem dinheiro para comprar ou para quitar as dívidas”.

O estudo da Acic apontou que as vendas apenas em Campinas também caíram de forma acentuada no primeiro semestre. “Em termos de Campinas, foi o pior desde 1999, com faturamento de R$ 6,35, contra R$ 6,64 bilhões no ano passado, uma queda de 4,31%. Em termos reais, contudo, o recuo ultrapassa os 10%”.

Com relação à inadimplência, os números também são muito ruins na cidade. “O calote chegou a R$ 88,7 milhões, com um total de 123.138 carnês em atraso”.

Para Martins, as perspectivas para o segundo semestre não mostram grandes mudanças. “É verdade que a confiança está começando a voltar, mas os ajustes na economia que o governo terá que fazer só surtirão efeitos no ano que vem”, ressaltou.

Conjuntura

O professor de Economia da Inova Business School, Anderson Pellegrino, afirmou que o cenário atual foi construído nos últimos três anos a partir da escassez de crédito, do endividamento do consumidor, da queda na renda do trabalhador e da elevação do desemprego.

“Durante o ciclo de acesso ao crédito, as famílias se endividaram comprando bens como casas e veículos. A partir do 2014, o custo do dinheiro ficou elevado e teve impacto sobre os financiamentos de bens. Em 2015, a crise se acentuou e aumentou o desemprego”, analisou.

Ele observou que o primeiro setor a sentir a crise foi a indústria, mas hoje comércio e serviços também vivem tempos difíceis. Para ele, uma mudança nesse quadro também só deve acontecer a partir de 2017. “O principal desafio agora é sair desse cenário de recessão e recuperar a confiança”.

O consultor de Negócios e professor de Gestão Financeira da IBE-Fundação Getúlio Vargas (FGV), Alcidney Sentallin, comentou que a restrição de crédito e a queda da renda afetam o movimento no comércio. “Os comerciantes precisam se readequear ao cenário atual e buscar maneiras inovadoras de atender as demandas do consumidor. É preciso apostar no relacionamento com o cliente e em novas experiências que estimulem as vendas”.

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Adriana Leite