Publicado 22 de Julho de 2016 - 22h55

Por João Nunes

Life - Um Retrato de James Dean

João Nunes

Life - Um Retrato de James Dean

Michel Fassbender protagonizou de modo convincente o personagem real Steve Jobs (Danny Boyle, 2015) e ficou pouco parecido fisicamente com o biografado. Afinal, não se faz necessário ficar igual, basta captar a essência. Pois precisamente isto ocorre em Life – Um Retrato de James Dean (Life, EUA, Reino Unido, Canadá, Alemanha e Austrália, 2016), de Anton Corbijn.

O ótimo Dane DeHaan vive um também muito convincente James Dean, que quase nada lembra o celebrado ator, morto precocemente em 1955. Até porque não se trata de biografia, mas de um recorte da vida dele. São as tentativas do fotógrafo da revista Life, Dennis Stock (o também muito bom Robert Pattinson), de fotografar uma estrela que ninguém conhecia ainda. Vidas Amargas estava sendo lançado e ele iria iniciar as filmagens de Juventude Transviada.

Dennis trabalhava em sets fotografando as filmagens – uma função designada como still – onde conheceu Nicholas Ray. Este o convida para uma festa na qual se sente absolutamente só. Então, o não menos solitário James o provoca com uma frase de efeito e eles ficam amigos. Tanto que James o leva para a casa dele em Indiana e se permite ser fotografado na intimidade.

A famosa foto de James fumando enquanto caminha na chuva na Times Square de Nova York nasceu como as grandes fotos: por acaso. Depois de levar uma canseira do ator, Dennis consegue, afinal, convencê-lo a fazer as fotos e marcam de se encontrar na famosa praça da Broadway. Só que está chovendo, mas o fotógrafo o desafia a fazer assim mesmo e James topa.

Antes de tudo, Life é um filme afetuoso ao narrar essa amizade nascida por acaso e que envolve dois profissionais nas respectivas funções. E, talvez pela frieza desse jogo de interesses – Dennis precisa das fotos, James necessita de que alguém o descubra – nem sempre as relações entre eles são amistosas.

E o diretor trabalha para referendar o mito. Seja pelo texto cheio de boas tiradas, frases emblemáticas, com posições definidas sobre assuntos diversos, incluindo a visão refratária e arredia dele sobre o mundo da fama, seja por prenunciar quem James será em um futuro breve.

Além disso, o roteiro acrescenta situações pouco conhecidas da vida do ator, como a tal visita de Dennis na pequena cidade Marion (Indiana) onde James nasceu. Agora, famoso, ele acaba, de surpresa, participando de um evento local e faz um sensível discurso.

É possível que tenha havido licenças diversas em episódios como estes e outros, mas impressiona como falar deles nos aproxima do homem longe da lenda. E isso fica claro quando o vemos tocando bongô entre as vacas, à mesa em família ou simplesmente conversando com o sobrinho em uma cena terna captada pelas lentes do fotógrafo.

Não há nada muito excitante no recorte proposto por Anton Corbijn e, no entanto, ele cria uma atmosfera propícia carregada de nostalgia que se projeta nas fotos que vemos sendo construídas. Algo como olhar um álbum de fotografia, como observar um retrato na parede. James Dean está lá como se fosse alguém próximo, um familiar, um parente, e, ao mesmo tempo, tão distante como um autêntico mito deve ser.

* Publicado no Correio Popular de Campinas em 22/7/2016

Escrito por:

João Nunes