Publicado 09 de Julho de 2016 - 8h55

Por João Nunes

Julieta

João Nunes

Julieta

Impossível não traçar um paralelo. Coloque o extraordinário Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Volver (2006), para citar dois exemplos, em comparação com Julieta (Julieta, Espanha, 2016), de Pedro Almodóvar. Bem, a comparação não deveria ser feita porque o novo trabalho do diretor fica muito aquém da força dos dois filmes citados.

Não, Julieta não é ruim. Se o compararmos com outros que se arriscam no melodrama, o cineasta espanhol se encontra muito adiante. Mas o paralelo é com ele mesmo. Ocorre que nos acostumamos a vê-lo quase sempre muito bem, acima da média – o que o coloca entre os cineastas incontestáveis, independentemente do que venha produzir.

Porém, Julieta nunca arrebata, mesmo quando vemos cenas similares à de outros filmes dele. Caso da protagonista sendo recebida na casa de uma amiga quando ela não consegue notícias da filha e que remete à sequência em que Manuela, a personagem de Cecília Roth recebe uma amiga logo depois da morte do filho.

É de cortar o coração o sofrimento de Manuela. Em Julieta, a cena é quase protocolar. A angústia de Julieta está longe daquela que consome Manuela. O que falta não é o drama em si. Ambas sofrem com a ausência dos respectivos filhos, mas a diferença está na intensidade e intenções das cenas.

Ou talvez revele um esgotamento do próprio cineasta em relação ao gênero que prevê muito sofrimento e muita dor – o que seria absolutamente natural e não depõe contra a carreira do diretor recheada de grandes filmes.

O fato é que vemos praticamente tudo das produções anteriores de Almodóvar: a elegância dos planos e da câmera, a capacidade incomum de filmar bem, os bons atores, a condução como um todo, a encenação, a música na dose certa, enfim, tecnicamente impecável. Porém, falta algo primordialmente forte que empreste vitalidade a uma história recorrente ao diretor, mas que nunca surpreende – e ele sempre surpreende.

Só para não parecer chato achando defeito onde não existe, basta lembrar a cena inicial que vale um filme em Volver. Ou a morte do filho de Manuela, inesquecível, capaz de comover todas as vezes que se vê – uma das grandes cenas do cinema recente. E dessa vitalidade que se fala e que nos marcam para sempre.

Inspirado em três contos da canadense Alice Munro, Nobel de Literatura em 2013, o filme traz Adriana Ugarte (Emma Suárez quando ela está na faixa dos 50 anos) no papel de Julieta que fica desesperada depois de ter sido abandonada, sem explicações, pela filha.

Ela está para se mudar de Madri para Portugal com o namorado Lorenzo (Dario Grandinetti), mas um encontro com Beatriz (Michelle Jenner), antiga amiga da filha Antía (Blanca Parés), a faz mudar de rumos. Muda-se para o prédio onde vivia e começa a escrever uma carta para a filha.

Julieta tem todos os ingredientes dramáticos de Almodóvar, os atores dele onipresentes e a sempre ousada postura em tratar de temas delicados sem nenhum pudor e, ao mesmo tempo, com generosidade. Os personagens e as histórias dele são exóticos e quase irreais, mas críveis nas mãos do diretor. Julieta é um Almodóvar autêntico; porém, menor.

* Publicado no Correio Popular em 8/7/2016

Escrito por:

João Nunes