Publicado 09 de Julho de 2016 - 8h49

Por João Nunes

Florence ou Marguerite?

João Nunes

Florence ou Marguerite?

A americana Florence Foster Jenkins (1868-1944), filha de banqueiro e herdeira do patrimônio do pai, fazia muito bem o papel de mecenas dos artistas na Nova York do começo do século 20. Bem, Nova York se você for assistir a Florence – Quem é Essa Mulher? (Florence Foster Jenkins, Estados Unidos, 2016), do britânico Stephen Frears, que estreia hoje. Em Paris dos anos 1920, se a opção for Marguerite (Marguerite, França, República Tcheca e Bélgica, 2015), do francês Xavier Giannoli, em cartaz na cidade.

Ajudar os músicos eruditos era um papel importante. Porém, ela ambicionou mais e desejou subir ao palco e cantar. Ocorre que a voz de Florence era muito ruim e desafinada. Mas quem ousaria lhe dizer a verdade?

A história é a mesma, com pequenas variantes – a começar das cidades. Porém, o francês tem um roteiro muito melhor elaborado, pois constrói a trama com ingredientes capazes de tentar explicar as razões de Florence. E há contrapontos certeiros, como o primeiro concerto – logo nas primeiras cenas – de um contralto que exibe voz belíssima.

Enquanto a produção americana trata a história pelo viés da comédia e o torna um tanto superficial (não por ser comédia, mas pela abordagem), a francesa também possui humor, mas estamos diante de um drama. Observe Marguerite assistindo à performance de um tenor em uma ópera. Ela sente encanto e inveja – sentimento terrível.

E temos as protagonistas vividas por duas atrizes pesos-pesados. Se do lado francês está a excepcional Catherine Frot, do lado americano reina a grande Meryl Streep. Catherine tem momentos mais densos (por isso a dramaticidade aflora) porque o diretor criou atmosfera adequada para, justamente, ser menos comédia e mais o drama.

Ao contrário do francês, o americano aposta na leveza. Meryl transita entre o drama e a comédia com facilidade e tem talento e repertório, mas sabe trabalhar a técnica no uso desses dois requisitos – outra das qualidades. Há uma cena exemplar: em uma apresentação, Florence pensa estar agradando e ensaia uma dança esquisita. Meryl sabe o ridículo que representa, mas o faz com reverência à personagem e com a verdade que a cena exige.

Mesmo não sendo cantora, Meryl e Catherine cantam muito bem. E ambas têm a facilidade de a personagem desafinar o tempo todo. A dificuldade se encontra em fazer comédia dessa deficiência. E, para exibir as desafinações, houve preparo vocal porque há uma busca pelo timbre da voz da personagem real, as vacilações, entonações e a interpretação em si: as atrizes fazem rir, mas precisam se levar a sério.

No balanço das duas interpretações, por ter maiores possibilidades de interpretação, ganha Catherine – o que não diminui o empenho da Meryl, desde já cogitada para mais uma indicação ao Oscar.

Na análise do filme, o francês também leva vantagem. Não só pelo ótimo roteiro e interpretação da protagonista, mas pela belíssima fotografia circunscrita quase sempre a espaços fechados e que ajuda criar a atmosfera de contrastes entre o que é artisticamente bom e ruim.

Ou quando valoriza os bastidores. No longa de Xavier Giannoli, o marido é quase um vilão, pois não concorda com as excentricidades da mulher. Esta é mais consciente da própria deficiência, mas o desejo de estar no palco (e nisto reside a dramaticidade) lhe impede de enxergar – note a excitação quando vai ao camarim do tenor que será o futuro “mestre” dela. No de Stephen Frears, Florence é apenas uma exótica que não se dá conta do ridículo.

Comparar como se estivessem disputando uma corrida parece cruel. Infelizmente, trata-se de coincidência no lançamento das respectivas profissões. O francês é melhor, mas o americano também é bom. E tem Meryl Streep, de 67 anos, que poderia estar satisfeita com os três Oscar que ganhou e com as dezenove vezes a que foi indicada – marca excepcional para uma atriz e recorde absoluto –; porém, continua a se desafiar na profissão.

Melhor é ver os dois: Florence – Quem é essa Mulher, mais descontraído; Marguerite, mais denso. Ganha espectador. Por fim, veja a verdadeira Florence cantando. Está no Youtube.

* Publicado no Correio Popular em 7/7/2016

Escrito por:

João Nunes