Publicado 13 de Novembro de 2015 - 10h20

Por Adagoberto F. Baptista

Fotos: Gustavo Abdel

Gustavo Abdel

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Já faz pelo menos dois anos que muitos moradores de um condomínio na Rua Jasmin, no bairro Chácara Primavera, em Campinas, estão economizando com a compra de hortaliças, ervas finas e algumas frutas. É que a iniciativa de um simpático casal criou raiz e agora todos podem colher os resultados. Mesmo aqueles que no começo acreditavam que era um tremendo de um "abacaxi", hoje também descem de seus apartamentos com a sacolinha na mão para fazer a “feira”.

Dizem entre os moradores que os aposentados Armindo Bulla, de 77 anos, e sua esposa Alice Ceolla Bulla, de 73, são os responsáveis por levar inteiração social aos condôminos, alimento saudável às mesas e educação ambiental aos mais jovens, que constantemente recebem aulas de agricultura sustentável. Daqueles que criticaram no começo, hoje o casal apenas encara com complacência, sem dar muita bola, pois sabem que a esmagadora maioria aprovou a iniciativa, e que inclusive acreditam que poderia ser compartilhada em muitos outros condomínios. O que importa para eles é ocupar-se de um hobby que não faz mal a ninguém, pelo contrário.

Mas eles admitem: “Fomos silenciosos. Plantando um palmo aqui, outro ali, e quando vimos estamos com tudo isso”, disseram. Até mesmo ligações anônimas intimatórias eles receberam. Hoje, no entanto, a horta possui mais de dez canteiros com inúmeras qualidades de folhas. Tem até um “berçário” de alface, que depois é transplantado para a ala principal das hortaliças. A grade da quadra de tênis, por exemplo, está inteiramente tomada pela parreira de maracujá. Pés de mamão já deram centenas de frutos, e até pêssego - após um ano e meio plantado - já está com uma dezena deles amadurecendo.

Metade da faixa de gramado que circula a pista de caminhada é comestível. A criançada vive por lá colhendo com a supervisão do casal. “Começamos plantando uma pitangueira. Depois avançamos para dois ou três pés de alface. Daí então não paramos mais”, lembra Alice. Há 15 anos morando no condomínio, a iniciativa foi justamente para ser uma distração do casal, e hoje se transformou em expediente fixo. “Passamos pelo menos metade de um dia aqui. Regamos diariamente, replantamos as mudas, fazemos a limpeza e a conservação dos canteiros”, mostrou Armindo.

Alface lisa, crespa e americana. Rúcula, almeirão, escarola, catalonia. Também tem pé de tomate, araça, limão taiti. Um canteiro cheiroso abriga mais de 15 qualidades de ervas finas, onde cada um dos moradores que usufrui da horta doou uma ou duas ervas ali plantadas. Ali estão plantados manjericão, pimenta, hortelã, orégano, alecrim, manjerona. O casal garante que por semana são quase 400 pés de alface - o carro-chefe do condomínio.

No entanto, recentemente chegou a disciplina na horta. Junto da filha da vice-síndica, o casal elaborou diversas plaquinhas para colocar nos canteiros. “Ainda não estamos prontas para sermos colhidas”, ou “os maracujás deverão ser colhidos quando estiverem amarelos”. “Essas placas ajudaram muito a educar os moradores”, acredita o casal. Ao todo são 89 apartamentos, divididos em três torres. “Se não cuidar vira bagunça”, foi categórico o aposentado.

Alguns moradores que fazem a colheita com mais frequência colaboram com sementes. O casal planta, aduba, rega e também fiscaliza mão por mão para saber quem são aqueles que pegam seis pés de alface de uma vez só, por exemplo. “Pedimos para colher até quatro, mas tem gente que finge não escutar. Mas viver em condomínio é isso. O bom é que a maioria tem bom senso e sabe levar a quantidade certa”, diz Alice.

Armindo já plantou muito nessa vida. Desde a época de sitiante em Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul, como professor de ginásio, “semeando” ensinamento em diversas disciplinas. Economista formado, atuou como processador de dados na rede bancária. O gaúcho cruzou na “horta” da catarinense Alice, quando foi visitar o irmão em um hospital que ela trabalhava como enfermeira, no Paraná. A semente do amor vingou e já são mais de 40 anos de união. Raiz profunda que germinou um filho e cultivou duas filhas adotivas. Os três se orgulham do movimento que os pais encamparam no condomínio. “Temos projeto de expandir nossa horta, mas na hora certa falamos o que vai ser”, finalizaram. Um detalhe importante: tem abacaxi plantado por lá também, não aquele que planta a discórdia.

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Adagoberto F. Baptista